(Valter Campanato/Agência Brasil) Sou maratonista… de séries. Se a história me pega, pronto: não me importa se é lançamento do momento, queridinha da crítica ou uma daquelas antigas, esquecidas lá no fundo do catálogo, cobertas de pó digital. Aliás, confesso: tendo a preferir as que já terminaram. Fico ansiosa quando uma temporada acaba e só vou saber a continuação dali a um ano, ou quando a plataforma decidir, caprichosa, liberar. Pior é quando cancelam no meio do caminho. A gente se apega aos personagens, acompanha cada desgraça e reviravolta para depois ser largada no limbo sem desfecho. Diante disso, as séries antigas me dão mais segurança. Já sei que estão ali, completas, esperando por mim como uma pizza esquecida no freezer: pode demorar, mas é só tirar e esquentar. No momento, estou viciada em uma série de 2009. Sim, 2009, quando o mundo era outro e ninguém sabia o que era TikTok ou dancinha ensaiada. A série é The Good Wife, ou A Boa Esposa, se a gente for literal. Ela foi até 2016, o que quer dizer que já tem começo, meio e fim, exatamente do jeito que eu gosto. O enredo gira em torno da Alicia Florrick, vivida pela incrível Julianna Margulies. Ela é casada com o procurador de Chicago, interpretado por Chris Noth, o famoso Mr. Big de Sex and the City, que aqui trocou os drinques de Manhattan pelos escândalos de corrupção e sexo com prostitutas. Depois de 13 anos sendo mãe, dona de casa e esposa exemplar, Alicia precisa voltar ao trabalho como advogada para sustentar os dois filhos. A série, dizem, foi parcialmente inspirada no escândalo do ex-governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer, e nas escapadas do Bill Clinton. Ou seja, plot twist da vida real. A produção é de ninguém menos que Ridley Scott, então já dá para saber que vem coisa boa por aí. Mas, apesar disso tudo, eu nunca tinha assistido. Na época, a série passava em horários ingratos, daqueles em que a gente está justamente fazendo o que não dá para pausar: vivendo. Agora, com a facilidade do streaming, maratonar ficou tão fácil quanto pedir comida por aplicativo. Pode ser no celular, no tablet, na TV. Vale até no notebook, com a cabeça torta e o carregador pendurado, porque maratonista de série não se importa com ergonomia. O elenco também surpreende. Outro dia quase pulei do sofá quando reconheci Pedro Pascal, o ‘daddy’ da vez, como advogado da promotoria. E ele ainda tinha cara de bebê. Está lá, novinho, antes de virar o dono do apocalipse em The Last of Us ou o elástico Sr. Fantástico. Dá vontade de gritar: você ainda vai arrasar e ficar bem mais bonito! Mas o que mais me chama atenção nesses seriados do “mundo pré-vício-digital” é a diferença brutal da rotina dos personagens para a nossa. Os filhos adolescentes da protagonista até ficam no computador, aqueles trambolhos com CPU do tamanho de um micro-ondas, mas também saem de casa, leem, conversam. Os celulares são flip phones, aqueles que abrem e fecham, e as pessoas… telefonam. Sim, elas ligam umas para as outras. Ninguém manda áudio de três minutos ou figurinha de urso chorando. Assistir a essas séries é quase uma viagem antropológica. Em pouco mais de uma década, a vida mudou absurdamente. O advogado não precisa mais correr para o escritório para consultar um processo; ele abre o app no celular. Os adolescentes não ficam horas esperando a ligação do crush em casa, sentados na escada com o fio do telefone enrolado na mão. Hoje, eles mandam mensagem às três da manhã e ficam on-line eternamente, como se não houvesse necessidade de dormir ou existir offline. A gente também mudou. Antigamente, quando o telefone fixo tocava, a gente corria para atender. Agora, quando o celular vibra, a primeira reação é virar a tela para baixo e fingir que não viu. E no meio desse mundo acelerado, sigo maratonando. Série velha, série nova, série que ninguém mais comenta. Porque, no fundo, é como aquele meme clássico: talvez eu não esteja procrastinando, talvez eu só esteja curtindo o meu tempo antes de fazer algo que não quero.