(FreePik) Nem precisou alerta meteorológico. Santista raiz sabe que quando a ventania resolve dar as caras, é porque o frio está vindo com gosto. E ele veio. Entrou pela janela, se espalhou pelo azulejo do banheiro e agora mora no chão da casa toda. Está aquele friozinho cortante, que arrepia até pensamento e transforma a missão “levantar da cama” em desafio. Mas é preciso pagar boleto, então a gente vira uma cebola, cheia de camadas, e bora pra vida. É oficial: estamos na temporada de tomar coragem para sair debaixo do edredom só quando a água do chuveiro estiver realmente fervendo e a fumaça já dominar o banheiro. E mesmo assim, com dor no coração (e nas juntas porque já passei dos 50). Mas olha… eu gosto. Tem algo de abraço no ar gelado, especialmente quando a gente consegue vencê-lo com meias felpudas, casaco de lã que vem com memória afetiva, como o meu preferido que herdei da minha mãe, e aquela caneca de chocolate quente que vira aquecedor portátil de mãos e alma. Aliás, abri o armário de blusas de inverno na semana passada e fui atacada por uma nuvem de ácaros e memórias de invernos passados. Foi o sinal: hora de botar os casacos para lavar e, depois, passear, tirar o mofo das botas, desamassar os cachecóis e, claro, separar o que dá para doar. Porque frio de verdade a gente encara melhor quando aquece também o outro. Santista não está acostumado com isso não. Nosso inverno costuma ser uma visita tímida, dessas de médico: entra, fala oi e já vai embora. Mas dessa vez ele trouxe mala, cobertor e intenção de ficar. E tudo bem, porque junto com o frio chegam também aquelas cenas de cinema: o ritual da sopa borbulhando na panela, o forno ligado assando qualquer coisa que cheire a aconchego, o fondue (mesmo que de queijo comum e pão de forma), e aquela coragem para fazer pão caseiro só para ter a desculpa de deixar a casa quentinha e perfumada. Tem também os programas sagrados do frio: colocar um pijama que parece um abraço, maratonar série enrolado no cobertor como se o mundo lá fora não existisse, tomar banho quente com culpa zero por estar dissolvendo a conta de luz, andar pela casa de meia e chinelo, e fingir que a gente vai ler um livro inteiro… mas dorme na segunda página, quentinho, como manda o figurino. A parte difícil mesmo é lembrar que, apesar do frio, ainda temos que viver. Trabalhar, enfrentar o vento cortante da rua, fingir que o despertador é nosso amigo. Encostar o pé gelado no chão para ir à academia, depois ir para o batente que os boletos não esfriam. Mas tudo bem, depois a gente volta para o edredom como quem retorna a um grande amor, cheio de saudade. Então, sim, está frio. E que continue assim por mais uns dias. A gente merece esse respiro gelado para desacelerar, se entupir de comida quente, fingir que está em um filme europeu, se arrumar como se vivêssemos assim, elegantes com sobretudos e botas, e se permitir ficar mais dentro: da casa, de si, do cobertor de orelha. Agora me conta: você também já montou seu kit “não-saio-daqui-por-nada” ou está prometendo dar uma corridinha na praia mesmo com 12 graus sa sensação térmica?