(Sílvio Luiz/ AT) Fevereiro é como aquele dia em que ninguém sabe exatamente que horas são. A cidade acorda tarde, boceja com o mar, arrasta o ventilador pela casa e decide que ainda não é o momento de começar o ano. Janeiro foi o prólogo, uma promessa. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Fevereiro é a sala de espera com cheiro de protetor solar. Em Santos, fevereiro se espalha como um domingo infinito: as ruas têm preguiça, os prédios parecem sonolentos, o asfalto brilha como se estivesse derretendo em câmera lenta. O relógio existe, mas ninguém leva muito a sério. O calendário insiste, mas o corpo resiste. O mar continua chamando, como quem sussurra: depois você resolve. Depois o mergulho, depois do sorvete, depois da cerveja gelada que chega suando na mesa. Depois do Carnaval... Talvez por isso Santos tenha decidido ter dois Carnavais. Um só não basta. Os desfiles na Passarela Dráuzio da Cruz acontecem um fim de semana antes do Carnaval oficial, aquele marcado no calendário do território nacional. Melhor para nós, que vivemos a festa em dose dupla, como se fosse possível esticar a alegria e enganar o tempo. Dá para se fantasiar, se maquiar, se preparar, se esbaldar, sambar, desfilar, tudo duas vezes. Como se fevereiro fosse mesmo um domingo longo, desses em que ninguém quer que acabe. E há o Carnabonde, que parece resgatar uma memória coletiva: famílias inteiras juntas na Praça Mauá, faça sol ou faça chuva, dançando a tarde toda. E a Cidade tem mais: blocos, tendas, maracatu, criança correndo, adulto suando... Tudo isso depois da praia, que deixa a pele dourada, pronta para brilhar na fantasia, como se o corpo também fosse parte do figurino. Fevereiro é esse intervalo em que o mundo parece suspenso: nem férias, nem rotina, um meio-termo úmido e salgado. A Cidade ainda está cheia de visitantes, mas já começa a ensaiar o vazio de março. As cadeiras de praia aparecem e somem. As conversas são sobre calor, sobre trânsito, sobre a chuva que cai sem aviso, lança seus raios, e evapora em minutos. As noites de domingo têm uma melancolia própria, assim como o fim de fevereiro. É aí que as pessoas prometem começar a dieta “na segunda”, responder aos e-mails “na próxima semana”, organizar a vida “depois do Carnaval”. Fevereiro é um adiamento coletivo. Nos apartamentos, os ventiladores e ar-condicionados fazem uma sinfonia doméstica. Nos bares, os copos suam tanto quanto as mãos. Na praia, o sol não perdoa, mas a brisa alivia. Fevereiro é indulgente: permite cochilos longos, decisões adiadas, amores que não sabem se são de verão ou permanência. É esse espaço de respiração entre o que fomos nas festas e o que seremos na rotina. Um domingo que se estica, preguiçoso, sensual, quase irresponsável, mas já necessário nas nossas vidas. Em fevereiro, nós, com os pés na areia, a pele bronzeada e a cabeça meio em suspenso, fingimos que o ano ainda está para começar... duas vezes.