[[legacy_image_302383]] Quando era criança, nem sempre tinha dinheiro para a cantina da escola. Na época, lamentava, mas hoje só consigo ter boas memórias dos lanches que levava de casa. Estudava em um horário meio esdrúxulo, das 11h às 15h, solução ‘genial’ (só que não) do então Governo do Estado para ampliar o número de vagas, já que não havia salas suficientes para a demanda de alunos. Encaixaram um período intermediário sem pensar que as crianças teriam que almoçar às 10 da manhã ou às 4 da tarde, já que a merenda também se resumia a uma caneca de canjica ou um achocolatado bem duvidoso e aguado. Eu evitava os dois. Enfim, acabava que eu comia um pouco antes de ir e outro tanto depois que chegava. Mas também levava um lanche para o intervalo. Minha mãe fazia um sanduíche de ovo, às vezes frito, às vezes cozido. Colocava um pouco de azeite e sal em um pão francês fresquinho e, volta e meia, ainda incluía tomate e alface ou outros vegetais. Todo mundo em casa sempre colocou de tudo no pão, principalmente salada e legumes cozidos. Uma amiga de infância, a Laura, que agora mora longe, me mandou uma mensagem contando que até hoje mantém esse hábito que ‘importou’ das noites pós-balada na cozinha da casa dos meus pais. Um dos nossos recheios prediletos era salada de vagem bem temperadinha. Pode parecer estranho, mas é delicioso. Me lembrei disso outro dia quando, ao voltar de viagem, não tinha nada na geladeira, exceto ovo e tomate. Para minha sorte, sempre congelo pão francês e havia alguns no freezer. Coloquei no forno borrifando um pouquinho de água e ficou fresquinho de novo. Na hora que dei a primeira mordida no meu sanduíche fui transportada para aquele sabor de infância. É a tal comfort food, que virou moda após a onda gourmetizadora na qual a gente nem conseguia identificar direito o que estava sendo servido em restaurantes estrelados, com suas espumas, esferas, fumaças e ingredientes exóticos. Não que tudo isso não tenha seu valor. Há espaço para tudo. Porém, nada como uma comidinha com gostinho de mãe para deixar a gente feliz. Quando vou receber alguém em casa, as pessoas podem pensar, pelo fato de que a gastronomia faz parte do meu ofício, que vou servir algum prato gourmet. Geralmente, opto por algo que sei que está na lembrança afetiva do convidado ou na memória coletiva, como uma lasanha suculenta ou uma carne assada que desmancha na boca e que remete a domingos em família. Na minha infância, o dia mais esperado era o do estrogonofe. Eu e minhas irmãs comíamos até ficarmos estufadas, quase passando mal. Ainda hoje, é uma das coisas de que mais gosto. Minha comadre Lucy faz o melhor estrogonofe da vida – talvez porque, na época da faculdade, ela preparasse sempre este prato e, por isso, o sabor me traga ótimas lembranças. Mesmo o mais refinado paladar, hora ou outra vai sentir falta da sopinha que cura resfriado, do bolo da vovó ou do feijão da casa da mãe. É a ligação do paladar com a emoção, que transforma um ovo frito com gema molinha dentro do pão em uma iguaria de comer suspirando.