(Divulgação/ Pixabay) Nunca tirei férias em junho, mas este ano vou estrear o mês das festas juninas — as minhas preferidas — com tempo livre. Pelo menos na teoria. Porque, convenhamos, a gente chama de ‘férias’ o que na prática vira uma gincana: viagens, encontros adiados desde a era analógica, eventos que nunca conseguimos ir, faxina na casa, arrumação nos armários... E quando vemos já estamos precisando de férias das férias. A palavra ‘férias’ vem do latim feriae, que significa ‘dias de descanso’, segundo os dicionários. Mas o corpo, coitado, parece não ter sido avisado. Se tem viagem, lá vamos nós com horas de planejamento, planilhas de roteiro, mala pra cima e pra baixo, correria para não perder voo e, claro, aquela frase que todo brasileiro já disse ao menos uma vez: “não vou dormir em dólar”. Resultado: a gente acorda cedo, anda o dia todo, fotografa até a exaustão, tudo isso pra “aproveitar ao máximo”. Depois volta pra casa cansado, jurando que na próxima vai descansar de verdade. Spoiler: não vai. Há alguns anos venho me policiando para não cair na armadilha das ‘férias extenuantes’. Mesmo quando o destino é longe, fujo de muitos deslocamentos, horários cronometrados ou programação de reality show. Também reduzi o tamanho da mala após uma viagem à Itália no inverno, em que quase precisei de rodinhas nos pés para carregar tudo. Foi bonito — e pesadíssimo. No fim, só pensava em voltar para casa e me reconciliar com a mochila. Este ano, meu destino é Brasil. Começo pela Amazônia, mais precisamente Novo Airão, e estou animada — não só pelas paisagens, mas porque vou matar a saudade das sobrinhas que moram em Manaus. Vai ser especial levá-las para a floresta. O plano é curtir com conforto, repelente e um bom travesseiro. Nada de Indiana Jones — estou mais para versão chinelo e rede. Depois sigo para Bonito, capital do ecoturismo brasileiro. Uma viagem que adiei tantas vezes que já estava virando lenda. Agora vai. Sempre achei que a luz do Cerrado tem algo cinematográfico. O sol bate diferente, como se a natureza tivesse passado por um tratamento de imagem: tudo em 4K, HDR e trilha sonora natural. O Brasil é um espetáculo — e, infelizmente, também um palco de tragédias anunciadas. Só de pensar que esses paraísos podem desaparecer pela ganância de poucos, dá um nó na garganta. Em Bonito mesmo, descobri que há peixes exóticos em uma praia artificial que andam mordendo dedos. Sim, m-o-r-d-e-n-d-o. São espécies que foram colocadas ali antes de existirem regras de licenciamento ambiental. Ao contrário dos peixes nativos de Bonito, que se alimentam basicamente de folhas e não têm dentes fortes, esses possuem uma arcada dentária robusta. São espécies de fora, acostumadas a outra dieta. Resultado: viraram um risco dentro de um paraíso. E agora estão se multiplicando, porque o ser humano tem o talento inato de fazer besteira em escala industrial. Um lugar como Bonito, que depende tanto do turismo ecológico, acaba pagando o preço por decisões apressadas, muitas vezes movidas por interesses imediatos. É aqui que volto ao presente: enquanto preparo minhas férias, no Senado, discute-se a redução — ou até o fim — do licenciamento ambiental. Porque, aparentemente, proteger rios, florestas, animais e pessoas virou excesso de burocracia. Eu que achava exagero levar mala grande... Imagina o peso de carregar a culpa por deixar o País menos bonito, menos verde, menos nosso? Então, este ano, entre um milho cozido e um banho de rio, quero descansar de verdade. Mas também ficar atenta. Porque férias são para recarregar — mas não dá para desligar. E se o Brasil é o nosso quintal, cuidar dele devia estar no roteiro. Nem que seja para garantir que os peixes voltem a comer folhas, e não dedos.