(Reprodução) Fim de ano é aquele momento intenso em que todo mundo resolve viver três vidas ao mesmo tempo. A gente trabalha, monta a árvore, decora a casa, responde mensagem de amigos que não vê há muitos Natais, faz retrospectiva, promete que vai mudar de vida e ainda tenta, com uma fé que cambaleia, cumprir uma lista de tarefas que jamais coube num único dezembro. É quando o relógio se torna um personal trainer rigoroso: “Vamos lá minha filha, só mais um panetone, só mais uma confraternização, só mais um presente para comprar!” As listas… Ah, as listas. Elas brotam pela casa como visitas que chegam sem avisar (e ficam). Lista do que vai ter na ceia. Lista do mercado para fazer a ceia. Lista dos presentes. Lista de amigo secreto, que sempre tem alguém que esquece o prazo. Lista das metas que não foram cumpridas mas que, generosamente, ganham nova chance no ano seguinte, quase como plantas que você promete que desta vez não vai deixar morrer mesmo que o calor em Santos chegue aos 40°C. E a gente corre. Corre para embrulhar presente, corre para pegar a encomenda, corre para fugir da fila, corre até para fingir que tem tempo. Mas tem uma coisa bonita nesse caos: dezembro desperta uma solidariedade silenciosa entre desconhecidos. É o sorriso cúmplice de quem também está com cinco sacolas na mão, uma fita colada no cotovelo e uma dúvida existencial sobre qual é mesmo o lado certo do papel de presente. É o “pode passar” na fila da padaria, dito por quem sabe que o outro está carregando uma travessa de maionese como se fosse um bebê recém-nascido. Este ano, Santos entrou no clima de festa com mais entusiasmo do que nunca. A cidade parece ter passado glitter no próprio mapa. Luzes pela orla inteira, enfeites infláveis pelos jardins, enfeites que surgem nas praças como se fossem pequenos convites para desacelerar, tirar uma foto, respirar. E confesso: me rendi ao encanto do bondinho da Praça das Bandeiras transformado em máquina de bichinhos. As crianças vão amar, certamente. Aquilo é quase um lembrete coletivo de que a cidade — e nós — ainda sabemos brincar. E há também aquele momento em que, no meio da bagunça luminosa, a gente respira. Repara na cidade acesa, na família reunida, no aroma que sai da cozinha, no abraço que demorou o ano inteiro para acontecer. Percebe que, apesar do cansaço, existe a recompensa. É como se o ano inteiro coubesse na palma da mão e dissesse: “Foi difícil, mas olha você aqui, firme, com planos novos e do lado de quem importa.” Fim de ano tem essa coisa boa: ele não pede perfeição. Pede presença. Pede que a gente ria das trapalhadas, que aceite o improviso, que ressignifique o atraso. Que consiga ver beleza até na correria, porque ela só existe porque a vida está cheia.