(FreePik) Outro dia, um leitor contou que lia o jornal — incluindo minhas crônicas — de madrugada, nas noites de insônia. Quem nunca acordou no meio da noite e ficou ali fritando na cama, virando de um lado pro outro, deveria ser estudado. Tem quem tente preencher esse despertar com a TV ligada ou com os vídeos curtos e infinitos do celular. Outros apelam para um livro, para a música, para o jornal digital. Eu prefiro fingir que engano a insônia e fico na cama, de olhos fechados, tentando parecer dormindo até para mim mesma. O problema é que daí vem à cabeça o dia que passou e o outro que ainda vai chegar. Começa o desfile mental da agenda, dos e-mails não respondidos, das pendências que não couberam nas horas anteriores. E o pior é aquele vício de conferir o relógio. Primeiro, 2h40. Depois, 3h17. Aí vem 4h03. E quanto mais se olha, mais parece que o sono se ofende e vai embora de vez. Quando finalmente ameaça voltar, já está quase na hora de levantar. O horário de acordar, aliás, é campeão mundial da vontade de cochilar. Já fui daquelas que dormia oito horas seguidas e acordava sem lembrar de nada no meio. Acho que isso foi antes da gente ser tão estimulada o tempo todo — celular, streaming, notificações, Kindle com mil livros a um toque. É tanta coisa que queremos colocar em dia que sobra quase nada de espaço para a cabeça desligar de verdade. Deve ser por isso que a insônia virou um dos males mais democráticos dos tempos modernos. Antes, bastava um livro meio chato, duas páginas e já era. Agora, com tanto estímulo, até o tédio ficou raro. E tem essa coisa quase mística que acontece às vezes: a gente acorda exatamente no mesmo horário, como se tivesse despertador interno. Teve uma época em que eu abria os olhos e eram sempre 4h44. Todo dia. Meio assustador, meio mágico, meio bug do universo. À noite, tudo parece amplificado. O vento na janela vira assobio. A moto que passa na rua parece atravessar o quarto. O apito do trem lá longe nas vias portuárias vem direto no ouvido. A geladeira faz um som de nave espacial. O gato mia como se fosse vigilante do turno da madrugada, patrulhando os cantos da casa com ares de missão. Até o piso de madeira filosofa — range como um lamento existencial. O sono, esse traíra, se esconde num canto remoto da mente. E a gente ali, tentando parecer dormindo pro próprio corpo, enquanto a cabeça insiste em estar viva. Tem noite que bate fome. Dá vontade de levantar e já começar o café da manhã. Mas eu resisto. Fico tentando enganar o corpo, como se ele não soubesse que estou acordada. Em outras, surgem ideias para crônicas. Às vezes são boas. Em outras, nem tanto. Antes, confiava na memória, achando que ia lembrar de manhã. Nunca lembrava. Agora, pego o celular e anoto. No dia seguinte, às vezes sai um texto. Em outras, um monte de besteira. Talvez, no fundo, a insônia não queira ser vencida, queira ser ouvida. Como um sussurro que só se revela quando o mundo silencia. E se você, leitor insoniado, chegou até aqui — na calmaria dessa madrugada compartilhada — saiba que talvez essa crônica tenha nascido da mesma vigília que nos une.