(Reprodução) Todo ano é a mesma coisa. Dezembro chega com suas luzinhas coloridas, o panetone piscando para mim das prateleiras tentadoras… e a Mega da Virada prometendo cada vez um prêmio maior. Agora, há quem diga que será de R\$ 1 bilhão. Um. Bi. Lhão. É nessa hora que eu, cidadã consciente e zelosa do meu suado dinheirinho, faço um voto solene: este ano não entro em bolão nenhum. Afinal, há anos insisto, invisto, acredito e não ganho absolutamente nada. Nem a quadra moral. Só que aí vem o pensamento mais perigoso de todos: e se eu for a única que não ganhar? A continuar tendo que controlar minha conta bancária com lupa... Porque ganhar todo mundo junto já é difícil. Agora, perder sozinha enquanto o resto da humanidade some do grupo do WhatsApp rumo às Maldivas… isso é inaceitável. Lembro imediatamente da história que me contaram — essas histórias que ninguém conhece a pessoa, mas todo mundo reconhece o trauma. A funcionária que não entrou no famoso bolão premiado da Marimex. Dizem que depois ela nunca mais foi a mesma. Depressão, olhar perdido, café frio esquecido na mesa. Virou praticamente uma lenda urbana corporativa. O “não entrei no bolão” virou diagnóstico. Resultado? Não tem jeito. Eu participo. De todos. Tem o geral da empresa, aquele oficial, com uma lista de gente que já deixa a premiação menorzinha. Tem o bolão de um grupinho dentro da empresa, porque vai que o geral não dá sorte. Tem o dos amigos, o da família, o do vizinho, o do primo que só aparece no Natal e já chega com o Pix pronto. São 50 reais aqui, 30 ali, 25 acolá… e lá se vai o dinheiro. O prêmio promete um bilhão, mas meu saldo bancário promete entrar em recesso. E aí começa a fase mais divertida: a das estratégias infalíveis. Sempre tem alguém que entende do assunto. Aquele que jura que estatisticamente não sai número repetido. O outro que só aposta em datas “energéticas”. Tem quem escolha números altos porque “ninguém escolhe”. Tem quem indique números baixos porque “saem mais”. Tem quem jogue só ímpar, só par, misto, cruzado, simétrico, alinhado com Mercúrio retrógrado. As probabilidades? Ah, as probabilidades… Elas são sempre explicadas com uma tranquilidade cruel. Algo como: “É mais fácil ser atingido por um meteoro do que acertar a sena e ainda leva um raio de brinde.” Mas tudo bem. Fé não precisa de matemática. E assim seguimos, todos os anos, nesse ritual coletivo de fé e contradição. Gastamos o que não ganhamos acreditando que vamos ganhar o que jamais ganhamos. Porque, no fundo, a esperança é a última que morre. Certamente, depois do meu saldo bancário que já faleceu. No dia do sorteio, ninguém trabalha direito. Todo mundo faz conta mental: “Se eu ganhar, compro as passagens para Maldivas antes ou depois do almoço?” Aí os números saem, e o prêmio vai para uma microcidade que nunca se ouviu falar. O consolo: não perdi sozinha.