(Freepik) Essa facilidade de ter, literalmente, o mundo inteiro à venda na palma da mão é, ao mesmo tempo, milagrosa e desastrosa. Eu sou do time das preguiçosas assumidas. Nunca fui muito consumista, não por virtude, mas por pura falta de ânimo para bater perna em shopping ou enfrentar fila de supermercado. Já houve um tempo em que eu até achava supermercado interessante. Passou. Hoje prefiro os que parecem uma butique: pequenos luxos, prazeres embalados, iluminação difusa e nenhum carrinho gigante que parece ter vida própria. Mas aí veio a era do delivery institucionalizado… e meu “consumismo interior” (vamos chamar assim) floresceu com uma velocidade que nem eu imaginava ter. Até a famosa compra do mês ficou mais fácil (e às vezes até mais barata), porque basta abrir uns apps para comparar preços em todos os mercados da cidade. Sucumbi sem resistência, admito. Agora, existe uma regra não escrita da vida adulta digital: jamais navegar no celular, deitada na cama, com insônia. É um convite ao desastre. Você vai só “relaxar vendo uns videozinhos” e de repente está sendo bombardeada por anúncios perfeitamente calibrados para sua vulnerabilidade emocional. Muitos, claro, verdadeiros golpes. Quem nunca comprou algo que não chegou? Quem nunca acreditou numa propaganda que parecia generosa demais? Com a inteligência artificial então… virou parque de diversões para golpistas. Um amigo meu achou que tinha feito o negócio do século: comprou uma batedeira gringa caríssima por um preço indecente, porque, veja bem, o Alex Atala estava fazendo propaganda. Ou melhor, a versão falsificada dele. Claro, nunca viu a cor do eletrodoméstico. Minha avó já dizia: quando a esmola é muita, desconfie. Outra amiga encontrou uma geladeira incrível numa promoção da Magazine Luiza. Tinha que ser no Pix. Só que era um site falso, igualzinho ao oficial, e ela só percebeu tarde demais que fez o Pix para uma pessoa física. Eles imitam tudo tão bem que até a desconfiança tira férias. E tem os aplicativos chineses, especialistas em distribuir “presentes” que você não pediu, mas que magicamente te convencem de que valem a compra. Você não precisa de nada daquilo, mas aí enche o carrinho porque, claro, é muita vantagem para desperdiçar. Sou eu todinha. Outro dia, uma cena digna de filme. Chamei meu marido para ver um lustre que achei lindo para colocar em casa. Ele gostou também, e eu já estava ali, com o dedo em cima do “comprar agora”, quando o interfone tocou. Era entrega. Ele desceu, pegou, voltou, me olhou com uma cara séria e perguntou: — Você anda fazendo feitiçaria? Olhei para a caixa. Era o lustre. E então percebi: eu já tinha comprado. O consumismo anda tão automático que minhas compras chegam antes mesmo de eu ter consciência delas. Não sou eu a feiticeira. São essas engenhosidades do marketing digital, que parecem ouvir até o que a gente nem sabia que queria. *Jornalista e gastróloga fernanda.lopes@grupo-tribuna.com