(FreePik) O verão chega diferente quando tem criança em casa. Não é só o calor, é o barulho. Um barulho bom, meio desorganizado, de risadas que ecoam pelo corredor, de pés descalços correndo pela sala e de perguntas feitas na hora em que o adulto finalmente senta no sofá. Minhas sobrinhas Gabi e Gigi, de 6 e 8 anos, passam as festas e um pedaço das férias aqui em casa. Todo ano é assim desde que nasceram. Mesmo quando eu não estou oficialmente de folga, o clima muda. A casa entra em modo verão. Dorme-se mais tarde sem culpa, faz-se pipoca em plena terça-feira, arma-se acampamento na sala para uma sessão de cinema improvisada. Todo dia é dia de parquinho. Todo dia é dia de tentar encaixar uma praia nessa equação sempre a ser resolvida entre jornada de trabalho e lazer. E fica tudo mais leve. Até o cansaço. Verão tem esse poder curioso de puxar a memória pela mão. No meio da bagunça delas, eu volto a ser menina. Lembro de quando eu e minhas irmãs esperávamos ansiosas pelas férias na casa da minha avó Nilva. Ela não morava longe, mas aquele endereço tinha gosto de diversão. Minha mãe trabalhava, precisava de ajuda, e nós ganhávamos o melhor presente possível: dias inteiros sem relógio. Minha tia Neni ainda era solteira, namorava meu tio Omar. Nós adorávamos quando eles nos levavam para passear. Aquário, Orquidário, o Leão dos jardins da orla, praia, piscina… Tudo parecia uma grande aventura, mesmo que fosse simples. Meu avô Wilson, que amava uma prainha, estava sempre conosco nos mergulhos no mar. Brincava de cavar um buraco gigante na areia e dizia, com absoluta convicção, que ele iria parar no Japão. A gente acreditava. Ou fingia acreditar, o que dá na mesma quando se é criança. Os castelos eram feitos com a areia molhada, daquela que exige técnica para ficar de pé. Muitos pingos para formar uma torre. O nosso tinha várias delas. Tinha contorno, tinha capricho. Fazíamos fossos, pontes, uma verdadeira engenharia para proteger a obra-prima que, invariavelmente, era engolida pela primeira subida de maré. Tudo bem. A gente fazia outro. Tínhamos as férias inteiras pela frente. Outra lembrança é de tentar voltar descalça para casa e queimar o pé na areia fofa. O asfalto, nem se fala, dava para fritar um ovo, como falava Seo Wilson. Hoje, o tempo passa mais rápido. Ou somos nós que andamos apressados demais. Ainda assim, eu, minhas irmãs, marido e cunhados tentamos repetir o ritual. Fazemos pipoca, levamos ao parquinho, insistimos na praia mesmo quando o dia não está perfeito. Cavamos novos buracos e lembramos que o Japão é logo ali no fim dele. E erguemos castelos que constroem memórias. Tentamos, com a delicadeza possível, transformar férias em lembrança. O verão, para quem mora na praia, não é só o calorão constante. É sobre criar pequenas histórias que vão morar em algum lugar silencioso da memória. Daqui a alguns anos, talvez minhas sobrinhas lembrem dessas férias como eu rememoro as minhas: com saudade, com carinho e com a certeza de que, por alguns verões, o mundo foi um lugar muito bom de se estar. E segue sendo.