(Freepik) Eu me lembro da minha infância, quando a ansiedade pela Páscoa era difícil de controlar e o grande prêmio: o tão esperado ovo de chocolate. Naqueles tempos pré-internet e antes da febre das inovações chocólatras, não existia essa profusão de tipos, recheios extravagantes e brindes mirabolantes. O ovo era, bem… um ovo. De chocolate, sólido, sem variedades. No máximo, escondia meia dúzia de bombons dentro e vinha embrulhado em um papel brilhante que a gente aproveitava para brincar depois. E, diferentemente de hoje, ele não tomava as prateleiras do supermercado meses antes — só aparecia ali mais perto do domingo de Páscoa, aumentando a expectativa. Pode ser que minha memória de criança esteja me pregando peças, mas me recordo claramente de que quebrar um pedaço do ovo exigia força. O chocolate era tão maciço e resistente que parecia ter saído direto do freezer. Hoje, qualquer sopro racha a casca finíssima. Antigamente, a missão de tirar um naco de uma metade da casca, frequentemente, exigia reforços — chamava-se a mãe, o pai, ou, na ausência de adultos, recorria-se às (assassinas de dedos) faquinhas de serra ou aos martelos de amaciar carne, o que estivesse à mão. Agora, com o preço do cacau nas alturas, o que mais falta nos ovos de Páscoa é justamente a estrela: o chocolate. Não que na minha infância eles fossem baratos — sempre foram um luxo —, mas, pelo menos, a mordida era generosa. Hoje, encontramos algo mais parecido com uma folha de seda, tão fina quanto a paciência dos pais na fila do caixa. A culpa? Além da alta demanda, o cacau sofre com as mudanças climáticas, tornando-se um verdadeiro tesouro. E não é de hoje que o chocolate é tratado como uma preciosidade. Os Maias já chamavam o ‘xocolatl’ de presente dos deuses. E, convenhamos, quem somos nós para discordar? Mas o brasileiro é criativo e não se deixa vencer tão facilmente. Se o chocolate está com o preço nas alturas, a solução foi transformar os ovos em verdadeiras sobremesas: cascas recheadas com camadas de bolo, cremes, brigadeiro, biscoitos e caldas dignas de vitrine. Sem falar das misturas, que agora entram no próprio chocolate da casca para dar volume, sabor e textura. E não é que fica uma delícia?! A grande indústria também embarcou nessa onda, compensando o peso pena dos ovos com brindes cada vez mais chamativos. É como aquele meme: no meu tempo era ovo raiz, agora é ovo Nutella (literalmente). E assim seguimos tentando manter a deliciosa tradição, entre o chocolate que encolhe, brindes que crescem e preços que fazem até o coelhinho da Páscoa reconsiderar a carreira. Será que com o chocolate em risco, as pessoas prestam mais atenção ao aquecimento do planeta? Sei não, acho mais fácil inventarem um sabor imitação de chocolate do que reduzirem o CO2. E, assim, a gente segue tentando adoçar a vida. Uma coisa eu sei, agora as crianças não precisam mais de reforço na hora de tirar um naco da mirrada casca do ovo de Páscoa.