(FreePik) Tenho uma turma de amigos fiéis há mais de três décadas. Somos o grupo dos cinco, mas, com o tempo, viramos muitos mais — maridos, ex-maridos, filhos, noras, genros, amigos de outros amigos... é aquele tipo de amizade incondicional. A gente mexe um com o outro, mas se alguém de fora ousar fazer isso, o bicho pega. Olha, confesso: não sou exatamente aquela amiga que rega a amizade como uma plantinha, todos os dias — que está sempre ali, jogando uma aguinha, uma sementinha de carinho constante. Na verdade, venho de uma casa sempre cheia, com irmãs, primas e aquele entra e sai típico de família grande. Sempre amei esse caos bom, essa energia de gente reunida. Mas, justamente por isso, ter um cantinho só meu foi raro — e, com o tempo, aprendi a valorizar minha própria companhia. Gosto do silêncio, de escutar meus pensamentos, de estar comigo mesma. Só que isso nunca significou que não sinto falta da casa cheia — às vezes sinto. Especialmente quando as lembranças da bagunça boa vêm à tona. Sou mais do tipo que cresce sozinha, como planta que se adapta e floresce mesmo sem cuidado diário, mas que adora encontrar outras que florescem assim também. Já fui muito grude quando mais nova — daquelas amigas que ligavam o tempo todo, apareciam sem avisar, viviam coladas. Hoje, meu afeto é mais silencioso, mas não menos firme. Porque sei que sou aquela amiga com quem você pode contar. Sempre. Estou a um telefonema, uma mensagem, um sinal de fumaça de distância. Basta um recado, uma palavra, e lá estou eu, pronta para o que der e vier. E de vez em quando, sou eu quem solta o sinal de fumaça, querendo saber se está tudo bem, se os filhos estão saudáveis, se o trabalho vai indo. E isso, para mim, é o que importa: estar disponível quando realmente é preciso. Antigamente, minha casa era o ponto de encontro da turma. Hoje, as reuniões são mais espaçadas, mas nos encontramos nos fins de ano, aniversários e, infelizmente, nos velórios. E é nessas ocasiões, entre risadas e lembranças, que o tempo parece parar. Porque a gente pode até estar distante fisicamente, mas quando estamos juntos, o relógio desaparece. As histórias continuam as mesmas, a piada de um, a gafe do outro, aquele porre épico de todos os anos — sempre alguém relembrando em detalhes. É como aquele pão caseiro. Não precisa sovar muito. Quando ele sai do forno, o aroma se espalha e tudo volta ao normal. Não sou a amiga que manda mensagem todo dia, mas aquela que, quando o mundo desaba ou quando se sobe um degrau, está lá. Gosto de pensar que leal, com Wi-Fi emocional de longo alcance. Pode chamar que eu vou — para rir, chorar, dividir uma pizza ou uma taça de vinho, daí pode crer que vou mais rápido ainda. Porque no final das contas, o grupo dos cinco — que já virou dez, quinze, sei lá quantos —é como sofá em dia de festa: todo mundo aperta, mas ninguém fica de fora. Mesmo que seja preciso empurrá-lo pra abrir espaço, sempre cabe mais um. E enquanto houver um sinal de fumaça, pode ter certeza: vai ter abraço apertado, gargalhadas sinceras, porres memoráveis e esse amor que cresce forte, mesmo sem tanto esforço. É uma amizade tipo cacto — resistente, discreta, que precisa de pouca rega, mas que, com um raio de sol, floresce bonito e transforma qualquer reencontro em lar.