( Pexels/ Pixabay ) Alô? Quem fala? Outro dia, numa tarde qualquer sem importância, o celular tocou. Número desconhecido. Atendi porque sou otimista, podia ser alguma fonte de matéria. — Olá, sou a Fulana, assistente virtual do Banco Tal. Tudo bem? Não respondi. Fiquei ali, em silêncio, tentando entender como a Fulana tinha meu número se eu nunquinha fui cliente desse banco. Mas ela continuou, impassível, como quem ignora a realidade e segue lendo um roteiro. — Detectamos uma tentativa de compra no valor de R\$ 1.589,90. Caso não reconheça, digite 1. Desliguei. Bloqueei o número. Respirei fundo. Voltei ao que estava fazendo. Alguns minutos depois, o telefone tocou de novo. Outro número desconhecido. Segui otimista. Outra voz, agora masculina, tentando me convencer de que alguém havia feito um Pix de R\$ 2.000,00 da minha conta. Detalhe: minha conta em um banco no qual nunca coloquei um centavo sequer. Desliguei. Bloqueei. O celular vibrou novamente. Atendi sem dizer nada. Do outro lado, também silêncio. Um silêncio profundo, quase filosófico. Dizem que é assim que fazem: ligam, esperam a gente falar alô para confirmar que o número está ativo. Depois, repassam ao time do golpe. Pensei em responder com um feitiço qualquer, algo tipo ‘expecto patronum’ para ver se espantava essa horda de chamadas infernais. Mas desliguei e bloqueei mais um número. A sensação é de lutar contra um monstro mitológico: corte uma cabeça, nascem dez. Eles devem ter um gerador infinito de telefones, um bingo do estelionato, onde cada bola tirada é um CPF em potencial para ser ludibriado. Minha agenda de contatos é longa por causa do ofício, mas minha lista de números bloqueados está ainda maior. Deve ser mais volumosa do que a lista telefônica de uma pequena cidade. Talvez o único jeito seja fazer amizade com o ‘inimigo’. Criar um vínculo, perguntar sobre suas mães, recomendar séries. Da próxima vez que a Fulana me ligar, talvez eu responda: — Oi, Fulana, tudo bem e você? Como está seu dia? Você se sente realizada no seu trabalho? Quem sabe assim, entre um golpe e outro, eu consiga pelo menos uma boa conversa jogada fora. Enquanto isso, as chamadas que eu preciso atender — do entregador perdido, do médico confirmando consulta, do amigo que realmente quer falar comigo — caem no limbo das ligações não retornadas. Porque agora, atender ao celular virou roleta-russa. Nunca se sabe se do outro lado tem alguém de verdade ou apenas mais uma voz robótica tentando me convencer de que minha conta foi hackeada, meu nome está sujo ou que um prêmio incrível me espera, desde que eu informe todos os meus dados primeiro ou aperte alguma tecla ‘fatal’.