(Vanessa Rodrigues) Quando eu era criança lembro bem da gente não conseguir pisar no chão quente sem chinelo durante o verão e sair dando pulinhos na areia fofa quando teimava que a sola já estava calejada. Tenho fresco na memória, o meu avô Wilson atravessando a avenida da orla com as netas à tiracolo naquele sol de meio-dia, na volta para casa. Ele nos dizendo que naquele horário, se quebrasse um ovo no asfalto, fritaria. Sim, sempre foi calor em Santos. Mas também sei que a gente não passava filtro solar, até porque ele nem era comum na minha infância. Só me lembro da marca Epsol que vinha em uma embalagem minúscula e era caríssima. A moda era se besuntar de bronzeador Rayto de Sol ou óleo Johnson com urucum. Quanto mais melequento, melhor. Se faço isso hoje, saio da praia com queimadura de terceiro grau. Outro dia, não percebi e passei um filtro solar vencido. Fiquei duas horas na sombra do guarda sol e, mesmo sendo morena, fiquei roxa como um dos teletubies. Se você pegar fotos da minha infância ou adolescência, nunca vai me ver vermelha. Eu exibia um bronzeado bonito, daqueles de comercial. A ciência mostra e nós, literalmente, sentimos na pele: a camada de ozônio não nos protege mais. Esse calorão de últimos dias parece pior do que aqueles que meu avô falava que fritava o ovo no asfalto. Parece que a gente está em uma panela de pressão. E as notícias são de que vai continuar. Nesse carnaval, todos os caminhos levarão à praia. “Allah-la-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô/Mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô/Atravessamos o deserto do Saara/O Sol estava quente e queimou a nossa cara...” Pelo jeito a marchinha vai ser substituída por uma versão caiçara. Hoje, até a maresia parece suada. A praia está cheia, mas ninguém mais se bronzeia despreocupado como antes. Os guarda-sóis se multiplicam, os celulares avisam sobre a sensação térmica de 50 graus ou mandam alertas de tempestades e evacuações cada vez mais constantes, em um mês de crianças passando mal nas escolas públicas superabafadas. A tecnologia e o conforto são aliados, mas, lamentavelmente, não são para todos. Os ambulantes agora vendem protetor solar em spray, creme, gel, fluido ou óleo. O sol, aquele mesmo que dourava minha pele sem pressa, hoje cozinha no ritmo apressado da modernidade. E eu me pego pensando: se meu avô ainda estivesse aqui, ele não apenas falaria do ovo fritando no asfalto. Talvez, em seu humor sempre mordaz, diria que já dava até para cozinhar um PF completo.