(Fernanda Lopes) Fui tomar vacina contra a gripe e os vi de pertinho. Já escrevi sobre eles há alguns anos, mas não resisti voltar a falar — porque tem coisa que conforta a alma como um gole de café quentinho num dia preguiçoso. É assim que me sinto toda vez que passo pelo predinho de cinco andares que está no meu caminho diário para o trabalho. No primeiro andar, ali bem perto da Policlínica da Conselheiro Nébias, uma cena se repete com a precisão de um ritual encantado: uma tropa de super-heróis, enfileirada na varanda, com as faces voltadas para a rua, como se estivessem de prontidão para proteger aquele lar — ou talvez o mundo inteiro. É impossível não sorrir. Eles estão sempre lá, milimetricamente organizados, com suas roupas multicoloridas impecáveis, como se tivessem acabado de sair de uma missão ultrassecreta ou de uma reunião da Liga da Justiça versão ‘quartinho da bagunça’. E é ali, naquele pedaço de varanda que aos olhos dos adultos é só mais um espaço para colocar plantas (e muitas vezes esquecer delas), que um mundo mágico se revela. Um forte. Um quartel-general secreto. Um universo de aventuras criadas por pequenas mãos e grandes imaginações. E sim, eu sei que aquele lar tem crianças. Porque, depois que escrevi sobre esses super-heróis na coluna, recebi um e-mail da família que vive no apartamento-forte. E me contaram que as crianças realmente dão vida àquela turma. Eles têm nomes, missões, histórias. A cada dia podem ser diferentes, mas estão sempre lá, firmes, como soldados da infância vigiando o mundo lá fora. Nesse mesmo mundo onde casais vão à Justiça disputar a guarda de um bebê reborn — isso mesmo, um boneco de silicone que custa mais do que um bom celular e tem até certidão de nascimento — ou onde há transmissões ao vivo de partos simbólicos desses bebês (com direito à trilha sonora emocionante digna de novela), eu escolho acreditar que há coisas que seguem firmes, no lugar certo. E uma dessas coisas é essa varanda em Santos, sempre guardada por super-heróis que não ligam para o dólar, nem para curtidas, nem para o algoritmo. Eles estão lá. Todos os dias. Me esperando. E eu passo, olho, respiro fundo e sorrio. Porque enquanto os heróis estiverem de pé naquele primeiro andar, com seus olhares atentos para a rua e seus peitos inflados de coragem de plástico, o meu universo segue no eixo. E se um dia um dos heróis não estiver lá ou se, certo dia, todos saírem, espero que seja porque estão em missão especial: resgatando a imaginação de alguém que andou perdendo a fé nas coisas pequenas, mas extraordinárias — como uma varanda cheia de bonequinhos que salvam dias inteiros.