O silêncio seria bem-vindo

Bolsonaro tem uma bíblia própria de convicções, que permanecem intactas mesmo com todos os argumentos contrários

Por: Redação  -  14/01/22  -  06:49
Presidente Jair Bolsonaro desqualificou a gravidade de situações envolvendo a pandemia de coronavírus em diversas oportunidades
Presidente Jair Bolsonaro desqualificou a gravidade de situações envolvendo a pandemia de coronavírus em diversas oportunidades   Foto: Divulgação/Pixabay

Há um ditado popular que diz: “Muito faz quem não atrapalha”. Ele é empregado naquelas situações em que, de tanto que se espera uma atitude de alguém, já se começa a preferir que esse alguém nada fale ou faça, diante do risco que pode representar um posicionamento impensado ou contraproducente dessa pessoa. Ante o risco, melhor é nada dizer, nada fazer.


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Essa deveria ser a frase de cabeceira para o presidente Jair Bolsonaro em várias das situações vividas desde que a pandemia se instalou no Brasil, há dois anos. Já não se questiona sua falta de empenho em agilizar a compra de vacinas ou a total ausência de empatia, desde o início, diante das milhares de mortes que foram se sucedendo, dia após dia. Pelo contrário - e até mantendo certa coerência - tratou de dificultar a divulgação de dados sobre contaminados e mortes, a ponto de ter que se formar um consórcio de veículos de comunicação para compilar as informações.


O que surpreende quem acompanha o cotidiano do presidente é a facilidade que ele tem para desqualificar a gravidade das situações, jogando sombras em cenários verdadeiramente caóticos, em que a morte e a dor assombram todas as famílias brasileiras. O último episódio dessa natureza ocorreu na quarta-feira, durante entrevista remota feita ao site Gazeta Brasil. Ele disse, textualmente: “A Ômicron, que já espalhou pelo mundo todo, como as próprias pessoas que entendem de verdade dizem, que ela tem uma capacidade de difundir muito grande, mas de letalidade pequena. Dizem até que seria um vírus vacinal. Dizem que a Ômicron é bem-vinda e pode, sim, sinalizar o fim da pandemia”. Disse, ainda, que a nova variante não tem matado ninguém, e novamente se posicionou contrário à vacinação infantil que terá início na próxima semana.


Com o distanciamento histórico necessário e sem qualquer embalagem ideológica, todas as falas do presidente Jair Bolsonaro deveriam estar compiladas em um memorial, que retratasse com fidelidade e imparcialidade o contexto exato do pronunciamento e os respectivos fatos associados a ele, quase todos se contrapondo às suas próprias verdades. Bolsonaro tem uma bíblia própria de convicções, que permanecem intactas mesmo com todos os argumentos contrários que possam ser apresentados.


O que surpreende nessa postura presidencial é a falta de empatia diante do quadro instalado, agora, com nova sobrecarga no sistema de saúde, com centenas de milhares de contaminados, mortes e restrições parciais em segmentos específicos da economia, como os cruzeiros marítimos, aviação, shows, futebol e eventos que provoquem aglomeração. Postura inadequada para um presidente, que deveria se solidarizar com a morte, fosse ela singular, fosse ela plural.


Se a questão fosse apenas política ou ideológica, tolerava-se, seria apenas fruto de um país democrático. Como o contexto envolve a vida, melhor seria o silêncio.


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