(Ricardo Stuckert/ Presidência da República) O presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer aproveitar seu mandato no Mercosul, no próximo semestre, para encerrar a novela do acordo de livre-comércio com a União Europeia (UE), que dura 25 anos. Dessa forma, o próprio Lula poderia ter o tratado em vigor no último ano do seu governo. Apesar de estar quase tudo sacramentado, França, Hungria e Áustria tentam adiá-lo. Quem verbaliza essa oposição é o francês Emmanuel Macron, justamente o dirigente europeu mais próximo do petista. A reação dele é eleitoreira, pois os agricultores europeus temem o gigantismo do agronegócio brasileiro, que deu saltos de produtividade e de quantidades exportadas, com preços mais competitivos. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para tentar convencer Macron, Lula, em visita nesta semana a Paris, pediu para o francês “abrir o coração” ao acordo. O argumento do presidente da França é que os agricultores europeus obedecem a regras mais rígidas do que os sul-americanos. O argumento parece justo, mas na verdade a Europa se armou ao longo dos anos com regras que são protecionistas, feitas para barrar a produção estrangeira, fechando seu mercado não só ao Mercosul, mas à África e Ásia, incluindo fazendeiros pobres. O agronegócio europeu está centrado em pequenos produtores bem organizados politicamente e muito barulhentos. Quando querem protestar, levam seus tratores e até animais para as estradas e regiões centrais das principais cidades. Parte dessa classe se aliou à direita extremista, avessa ao multilateralismo (acordos via entidades de países), livre-comércio e globalização, e defensora do bilateralismo (cada país negocia direto com o outro) e do protecionismo. Essa mudança na política interna fez Macron afagar esses fazendeiros. Com o acordo, o Mercosul vai vender carne, açúcar, arroz, mel e soja aos europeus, enquanto a UE poderá exportar ao Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai carros, máquinas e bebidas alcoólicas, eliminando barreiras que o Mercosul também impõe. Lula, por exemplo, citou que o Brasil vai comprar queijos e vinhos franceses, apesar do País produzir esses bens. Por aqui e na Argentina, os mais industrializados do Mercosul, ainda há uma inquietação, pois os europeus têm exportação de alto valor agregado, que chegará mais barata. A competição costuma fazer bem à economia dos países, mas obviamente que o lado mais fraco precisa ter acesso a mais crédito, tecnologia e capacitação de mão de obra. Há poucos dias, o documento do acordo passou por um pente-fino jurídico, seguindo para a tradução em todas as línguas da UE e Mercosul. Depois, chegará a hora da internalização, quando a Comissão Europeia, órgão executivo da UE, e todos os governos e parlamentos precisam chancelar o acordo. Diz-se que a guerra tarifária americana fez um bem tremendo a esse entendimento, pois a UE percebeu que não pode ficar isolada comercialmente. Espera-se que Macron e os protecionistas dos dois lados não tenham cartas na manga para embaralhar o desfecho dessa novela.