(Reprodução/ X) Não bastassem todas as dificuldades que enfrenta para conduzir o País, o governo brasileiro resolve importar problemas. A proteção dada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à ex-primeira-dama peruana Nadine Heredia, condenada em caso de corrupção envolvendo a Operação Lava Jato, é um exemplo do que uma administração fragilizada não deve fazer. Esposa de Ollanta Humala, que governou o Peru entre 2011 e 2016, Heredia foi condenada a 15 anos de prisão por lavagem de dinheiro em dois casos: um deles envolvendo a construtora brasileira Odebrecht (atual Novonor) e outro sobre o governo do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. Entretanto, diferentemente do marido, a ex-primeira-dama não foi presa após a condenação. Ela se refugiou na Embaixada do Brasil em Lima e, de lá, recebeu o salvo-conduto de seu governo e o asilo de Brasília. Assim, deixou o país. Embora o advogado que representa Nadine no Brasil tenha afastado a possibilidade de quaisquer irregularidades na proteção dada à ex-primeira-dama ou no uso do avião da FAB, destacando que seria responsabilidade do País retirá-la do Peru após conceder o asilo, a oposição sugeriu a abertura de investigações pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Além disso, os oposicionistas querem convocar o chanceler, Mauro Vieira, a prestar explicações na Câmara e requisitaram informações por escrito ao Itamaraty. Ao todo, a Câmara dos Deputados já registrou seis propostas legislativas relacionadas à atuação diplomática e política de Lula em socorro a Nadine Heredia. Ao conceder asilo político à ex-primeira-dama do Peru, o governo brasileiro confunde diplomacia com ideologia e amplia o cardápio de escolhas ruins no campo da política internacional. Depois de endossar a invasão russa à Ucrânia e usar o Holocausto como exemplo na disputa entre israelenses e palestinos, Lula passa da retórica à prática com uma atitude bastante discutível e se complica na pretensão de posar como líder mundial e defensor da democracia. Justificar o injustificável é impossível. Mas o chanceler Mauro Vieira tentou. Ao explicar o que levou o governo a conceder o asilo, ele afirmou que o Brasil agiu motivado por razões humanitárias. Segundo ele, Nadine passou por uma cirurgia delicada recentemente e estava acompanhada de um filho menor de idade. Como o marido está detido, o filho ficaria abandonado. Como se não houvesse mais ninguém da família ou do círculo particular do casal para se responsabilizar pelo garoto. Ou como se, no Peru, Nadine não pudesse receber os devidos cuidados médicos e cumprir pena. Além de todo o desgaste interno, a decisão do governo brasileiro desmoraliza a Justiça do Peru, cria um incidente diplomático e abre brecha para ruídos capazes de trazer prejuízos no futuro. Tudo isso em um momento no qual o STF é alvo de questionamentos.