A Baixada Santista vive um momento histórico. Depois de quase um século de espera, o sonho de unir Santos e Guarujá por baixo do estuário deixou de ser apenas projeto e discurso: o leilão realizado na Bolsa de Valores de São Paulo marca a largada definitiva para a construção do primeiro túnel imerso do Brasil. Uma obra de magnitude rara, que remete à ousadia das pistas da Imigrantes e da Anchieta, marcos que transformaram a ligação entre o planalto e o litoral. O leilão foi vencido pela Mota-Engil, construtora portuguesa, com participação acionária da gigante chinesa CCCC. A primeira vez que se falou oficialmente nessa ligação submersa foi em 1927, em matéria publicada neste centenário jornal. De lá para cá, sucessivas gerações conviveram com a travessia por balsas – símbolo de paciência, resignação e, muitas vezes, de frustração. Agora, a perspectiva é que em poucos anos a travessia de uma hora, sujeita a filas e intempéries, se reduza a pouco mais de dez minutos. Uma revolução para a mobilidade urbana, com impacto direto no cotidiano de milhares de trabalhadores, estudantes e turistas que cruzam diariamente entre as duas margens. Um marco para as operações portuárias também. O túnel é mais do que rapidez, é também resposta a um planeta que demanda soluções sustentáveis. Ao retirar milhares de veículos das balsas e das estradas e reduzir o tempo de deslocamento, a obra contribuirá de forma decisiva para a diminuição da emissão de gases poluentes. Em um momento em que as mudanças climáticas pautam políticas públicas e investimentos privados, o túnel se apresenta como um símbolo de modernidade ambiental. A obra tem ainda uma dimensão econômica inegável. Durante sua execução, prevista para mobilizar ao menos 9 mil empregos diretos e e indiretos, será fonte de renda e dinamização de setores como a construção civil, serviços e comércio. Uma engrenagem capaz de aquecer a economia regional em um período prolongado. E, quando concluído, o túnel abre uma avenida de oportunidades: encurta distâncias, integra polos econômicos, fortalece o turismo e cria condições para que novos negócios escolham a Baixada como destino de seus investimentos. Não se trata apenas de ligar Santos ao Guarujá. Trata-se de inserir a Baixada Santista no mapa mundial dos grandes empreendimentos de engenharia. Poucos lugares podem ostentar um túnel imerso desse porte, com três faixas por sentido, espaço para pedestres, ciclistas e até o VLT. A região passa a ser vitrine tecnológica, capaz de atrair olhares de investidores e governos que buscam referências em inovação de infraestrutura. Ao vencer o desafio técnico, logístico e ambiental, o túnel se tornará um marco para gerações futuras. Mais do que uma obra de concreto e aço, será a materialização de um ideal perseguido por quase cem anos: aproximar pessoas, encurtar distâncias e projetar a Baixada Santista para o futuro.