A execução do ex-delegado-geral de São Paulo Ruy Ferraz Fontes, ontem, em Praia Grande, é um marco trágico e simbólico no enfrentamento ao crime organizado. Fontes era reconhecido nacionalmente por sua atuação firme contra o Primeiro Comando da Capital (PCC). Nos anos 2000, foi um dos primeiros a apontar a liderança da facção, inclusive com investigações que miraram diretamente Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, o líder da facção, preso desde julho de 1999. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Fontes teve passagens por delegacias especializadas de São Paulo. Foi no Deic, no início dos anos 2000, que iniciou as investigações envolvendo a atuação do PCC, mapeando sua estrutura criminosa. Em 2006, teve atuação importante durante a série de ataques do PCC realizados no mês de maio. O reconhecimento veio em 2019, quando assumiu o cargo de delegado-geral de São Paulo. Pouco tempo depois, chefes do PCC foram transferidos de presídios paulistas para unidades federais em outros estados, em uma tentativa de enfraquecer a facção nas cadeias. Após quase 40 anos de carreira como delegado, Fontes se aposentou da função e atualmente ocupava o cargo de secretário de Administração em Praia Grande. Foi executado à luz do dia, com mais de 20 tiros deflagrados em plena Avenida Roberto de Almeida Vinhas, e sua morte representa não só uma afronta direta ao Estado como um alerta claro: o crime organizado perdeu o medo de agir. O episódio reacende discussões urgentes sobre segurança na Baixada Santista, região que foi palco das operações Escudo e Verão, que deixaram 84 mortos em 2023 e 2024. Embora o Governo de São Paulo tenha defendido os resultados obtidos à época, entidades civis e familiares denunciaram abusos, execuções e violação de direitos. É legítimo que o Estado reaja a um atentado dessa magnitude, inclusive com a criação de uma força-tarefa para a prisão dos assassinos, determinada ontem à noite pelo secretário estadual da Segurança Pública, Guilherme Derrite. Mas a resposta não pode ser pautada exclusivamente pela força bruta, abandonando os princípios legais e abrindo espaço para novos ciclos de violência e injustiça, sem enfraquecer de fato as organizações criminosas. A Baixada Santista vive sob constante tensão. A presença do PCC é conhecida, e a sensação de insegurança é agravada quando até figuras históricas da polícia são alvos. No entanto, não se constrói segurança duradoura com operações episódicas, nem se honra a memória com mais mortes em becos e vielas. Ruy Ferraz Fontes representa o policial que ousou enfrentar o sistema, com inteligência e coragem. Foi morto por isso. Sua morte deve ser investigada com rigor e resolvida com justiça, não com vingança. É papel do Estado proteger, mas também garantir que o combate ao crime se dê dentro da legalidade. O desafio é manter firmeza sem perder a razão, fazendo da memória de Fontes um símbolo da lei – não da exceção.