(José Cruz/Agência Brasil) Sem um programa de austeridade fiscal, o próximo presidente, que pode ser o próprio Luiz Inácio Lula da Silva, terá de realizar forte ajuste das contas públicas, segundo vários economistas. Entretanto, a doença da gastança e da indisposição para cortar gastos não é exclusiva do Brasil. Os países ricos, alguns deles em situação pior do que a brasileira, enfrentam aumento da dívida com inflação, conforme a revista britânica The Economist. O problema vai dos Estados Unidos ao Reino Unido e França, chegando ao Japão, este um paciente crônico do endividamento, que não foi combatido provavelmente por seu financiamento barato, com juros ao redor de zero por décadas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O endividamento público com inflação é um problema antigo dos países pobres ou em desenvolvimento, e o Brasil, nos anos 1980 e 1990, foi um dos principais exemplos no mundo. Mas chama a atenção que essa crise em dose dupla contaminou as economias ricas, que estão em um dilema político que impede de tomar medidas para corrigir essas falhas, realizando cortes de gastos e subindo impostos. Os governos à esquerda ou conservadores, mas de centro, enfrentam o avanço da extrema direita. No caso do Reino Unido e, principalmente, da França, as atuais gestões já não conseguem fazer ajustes, pois estão impopulares com o aumento dos preços, que corroeu o poder de consumo. E os radicais, uma vez no poder, pelo menos na Europa, não sinalizam fazer essa arrumação. No Japão, a premiê Sanae Takaichi, que tomou posse na última terça-feira, disse admirar a britânica Margaret Thatcher, que usou a tesoura nos gastos públicos com maestria. Mas Takaichi é defensora do expansionismo das despesas estatais. O desprezo à austeridade também se vê com o americano Donald Trump, que tem demonstrado preocupação com a finança federal, mas preferindo cobri-la com a receita da guerra tarifária, que tem efeito perverso – a inflação. No fim das contas, como o aumento dos preços corrói o poder aquisitivo, Trump arrisca perder popularidade tal como o antecessor Joe Biden, em cujo governo a economia ia bem, mas com o custo de vida apertando o bolso da população. Com essa indisposição para arrumar a economia, analistas acreditam que o mundo entrará em uma fase demorada de endividamento e inflação, com baixo crescimento. Com um quadro desse, significa que o Brasil não está tão mal assim? Pelo contrário, o País precisa fazer a lição de casa porque já passou por seus efeitos - economia recessiva ou estagnada, e agora com expansões curtas intercaladas com recessões ou crescimentos medíocres. O Brasil deu passos importantes, primeiro superando a hiperinflação e depois ampliando suas reservas internacionais. Mas não fez a tarefa da gestão das contas públicas, cujo déficit alimenta a inflação e é financiado com juros altos. Sem desatar esse nó, o Brasil não vai se afastar do precipício.