A comemoração com que foi recebido aumento do superávit comercial (exportações menos importações) do mês passado pode ter sido precipitada. O saldo positivo foi de US\$ 6,1 bilhões, com alta de 35,8% sobre igual mês de 2024. A empolgação se deve ao resultado ter ocorrido no mesmo mês em que o tarifaço de 50% dos Estados Unidos entrou em vigor. Mas, assim como a China e outros países aceleraram suas exportações para escapar do início das sobretaxas americanas, reportagens mostraram que o Brasil investiu na mesma estratégia. Além disso, houve um recuo das importações, o que pode ter sido reflexo dos juros elevados. Como o crédito mais caro desacelera a economia, a tendência é que as compras externas tenham sofrido com a freada do País. Entretanto, o dado que mais chama a atenção no superávit de agosto é o das exportações para os Estados Unidos, que caíram 18,5% na comparação com igual mês do ano passado. A antecipação das vendas externas até julho deve ter diminuído o total a ser enviado em agosto aos Estados Unidos, mas também é esperado que a sobretaxa de 50% tenha inviabilizado o comércio com os americanos. Principalmente no caso dos alimentos perecíveis, pois não podem ser estocados com muita antecedência, como as frutas. Por outro lado, as exportações para a China cresceram impressionantes 29,9% em agosto, sobre o mesmo período de 2024. A expansão também foi verificada com o México, a Argentina e o Japão. Dos grandes clientes do Brasil, a exceção foi a União Europeia, com queda de 11,9%. Mas a impressão que fica é que pelo menos o segmento de commodities foi bem rápido para redirecionar suas mercadorias para outros países. Contudo, analistas alertam que o comércio exterior não pode ter análises conclusivas com períodos tão curtos, pois as trocas oscilam durante o ano, principalmente no caso dos alimentos e também devido aos preços. As cotações de alguns itens, como café, cacau e carnes, aumentaram fortemente nos últimos dois anos, o que estimulou as vendas para faturar com a alta. Mas há também produtos agrícolas que desvalorizaram e que enfrentam inflação de insumos. O que se deve admitir é que o tarifaço, que tem o Brasil e a Índia como os mais castigados pelo Governo Trump, destruiu o comércio com os EUA. Exceto no caso dos produtos que ficaram com sobretaxa de 10%, como suco de laranja, petróleo e outras exportações complementares à cadeia produtiva dos EUA. Até o momento, a Casa Branca está irredutível sobre negociar com o Brasil, aguardando um desfecho do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. Ao mesmo tempo em que essa crise prejudica pequenos e médios exportadores com dificuldades para redirecionar as vendas, o tarifaço poderá levar a dois caminhos: concentrar ainda mais as vendas à China ou ampliar as exportações a um grupo de grandes países, o que seria muito positivo.