(Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) A chegada do verão, celebrada pela movimentação intensa nas praias e pelo impulso econômico que a temporada traz, também revela um desafio que se agrava ano após ano na Baixada Santista: o aumento substancial da população em situação de rua. A região ultrapassou recentemente a marca de 3.800 pessoas vivendo nas ruas, e Santos, cidade-polo e detentora da melhor estrutura de serviços, concentra quase 2 mil indivíduos, mais que o dobro do registrado em 2019. No verão, esse contingente cresce ainda mais. Atraídos por trabalhos sazonais, especialmente nas praias, e pela maior circulação de pessoas, muitos chegam com a expectativa de renda rápida. Outros, sem opção, buscam apenas sobreviver. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É fundamental reconhecer que Santos não enfrenta esse desafio sozinha. A condição de cidade-polo, somada a uma rede de atendimento mais ampla, faz com que o município receba demandas de toda a região e de outros estados. É justamente por isso que insistir numa abordagem puramente local não apenas é insuficiente, como perpetua a sobrecarga que afeta a capacidade de resposta do sistema. Trata-se de um tema metropolitano, que exige planejamento conjunto e responsabilidade compartilhada. Enfrentar esse fenômeno implica ações coordenadas entre diferentes áreas do poder público: assistência social, saúde, segurança pública, emprego e renda, apenas para citar alguns dos setores que mais têm ligação com as demandas desse público. Não se trata de escolher entre acolher ou afastar, trata-se de integrar políticas para que nem o acolhimento seja ingênuo, nem o afastamento seja desumano. O crescimento da população em situação de rua é multifatorial: crises econômicas, moradia inacessível, desemprego, vulnerabilidades diversas. Mas há caminhos possíveis. A região precisa de um plano metropolitano de enfrentamento, com metas claras, financiamento compartilhado e serviços articulados, evitando a prática, ainda comum, de empurrar o problema para o município vizinho. Também não mais funciona simplesmente recambiar pessoas a suas cidades de origem se esse não for o desejo delas. O retorno às ruas é certo. É urgente ampliar vagas de acolhimento qualificadas, fortalecer equipes de abordagem, investir em formação profissional e ofertar programas de moradia assistida que rompam o ciclo das ruas. A sociedade também precisa ser chamada ao diálogo. Entre os que defendem acolhimento irrestrito e os que desejam simplesmente remover a presença da rua, existe um campo mais complexo: o do compromisso coletivo com a dignidade humana, sem ignorar os impactos que recaem sobre a vida urbana. Também nesse aspecto, a Baixada precisa olhar para si mesma como região, não como ilhas. A presença de moradores em situação de rua não é uma questão de soluções simples, mas o vazio de uma política regional e contínua só agravará ainda mais esse quadro.