(FreePik) A megaoperação contra o Comando Vermelho (CV) no Rio de Janeiro chocou pela violência. A força e a capacidade de organização com que a facção reagiu impressionaram, ainda que ela tenha sofrido pesadas baixas e perda de arsenal. Mas não se deve iludir que o CV vai se desintegrar ou perder importância, pois ações policiais desse tipo se repetiram ao longo dos anos, sem controlar a bandidagem. O governo fluminense considera a operação um sucesso, desde que a afirmação se restrinja ao dia da operação. O governador Cláudio Castro (PL), que pretende se candidatar a senador e busca o apoio da ala conservadora, aliás, criticando o Governo Federal, pode sair politicamente favorecido. Infelizmente, não há uma união na classe política, de olho nas eleições, contra o avanço das facções. Já os moradores devem continuar subjugados pelos bandidos, pois assim que um grupo sai de cena, começa-se a guerra pela ocupação por outras quadrilhas. Um futuro diferente, de paz e mais seguro, dependeria de uma parceria entre os governos estaduais (porque esse problema não é apenas do Rio) e o Federal, sem mirar o curto prazo das urnas. Paralelamente, o Poder Legislativo precisa colaborar, mudando seu comportamento atual de se voltar mais para seus interesses, as emendas parlamentares, do que os dos brasileiros. Na terça-feira, com efetivo de 2,5 mil agentes, houve 117 mortos, que o Governo do Rio de Janeiro afirma serem todos envolvidos com o crime, e a perda de dois policiais civis e dois militares, uma baixa assustadora do lado das forças de segurança. Segundo as notícias, o confronto foi planejado por um ano. O combate se deu numa pequena área de 9 Km2 (para comparação, a área insular de Santos tem 39 Km2), com casas de construção irregular espalhadas em becos. Essa geografia favorece a resposta violenta e a fuga dos bandidos, aumentando o risco de atingir inocentes. Desta vez, a polícia conseguiu encurralar o bando na mata, dificultando a guerra nas ruas. Os números da operação, o horror com os corpos expostos, a fumaça preta no horizonte e carros destruídos, um cenário de Gaza, o tumulto pela cidade e moradores apavorados provam a dimensão que o crime atingiu nas grandes cidades. O combate é atribuição dos governos estaduais, mas não há como atuarem sozinhos, sem o reforço federal, pois as facções agem livres em todo o território nacional. Essa tragédia não é a primeira desse tipo que se tem, mas por ser a mais letal, deveria virar oportunidade para reunir as forças políticas, mesmo opostas, por soluções de longo prazo. Há um projeto de reforma da segurança pública parado no Congresso por rivalidades eleitorais. O texto prevê sinergia entre os estados e a União, com troca de dados e infraestrutura para enfrentar as facções, maiores, endinheiradas, mais armadas e dominando tecnologias on-line. Mas nenhum lado consegue chegar a um consenso ou emplacar proposta alternativa. Quem sai ganhando são as organizações criminosas.