Após dois anos de guerra, o Hamas libertou 20 reféns israelenses vivos e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou, no Egito, o acordo de cessar-fogo na Faixa de Gaza, que ele disse ser o “fim da era de mortes e terror”. Dezenas de líderes mundiais foram a Sharm el-Sheikh prestigiar esse momento histórico, porém, com as ausências de representante do grupo terrorista e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que alegou conflito com um feriado judaico. Isso simboliza o risco das palavras de Trump ficarem apenas no discurso. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De qualquer forma, há muito o que ser feito. Será preciso formar um governo “tecnocrático” para Gaza, a ser conduzido pelo britânico Tony Blair, que entre suas tarefas mais difíceis terá que criar uma força de segurança. O Hamas, destroçado, mas não eliminado, sairá do governo de Gaza, porém, pode resistir a abandonar as armas. É previsível que, de suas fileiras, saia alguma resistência, com potencial de violência no futuro. Se o plano de paz for tão amplo como Trump deseja, terá que contemplar as outras frentes de conflito no Oriente Médio, como o Hezbollah no Líbano, cujos políticos moderados já discutem o desarmamento da milícia. Há ainda os houthis, no Iêmen, e o Irã, que se mostrou militarmente vulnerável, mas com um programa nuclear que não se sabe até que ponto será retomado. Pelo menos, Trump se dispôs a conversar com Teerã. A política interna de Israel é fundamental para o cessar-fogo se tornar um abrangente plano de paz. Netanyahu lidera um governo sustentado pelos radicais, que defendiam a continuidade da guerra e a anexação definitiva da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Por esse apoio, segundo analistas, Netanyahu resistiu ao cessar-fogo de Trump, que deu um basta quando Israel atacou líderes do Hamas no Catar, um aliado dos EUA. Por isso, o acordo é noticiado como o plano de Trump. A paz, entretanto, depende de uma definição sobre o Estado Palestino, que Israel não aceita, alegando questão de segurança. O reconhecimento desse direito por vários países ricos, exceto os EUA, teve o efeito prático de isolar Tel Aviv. Também falta discutir o futuro da Cisjordânia, território palestino ocupado por Israel, que expandiu assentamentos de colonos por lá. A região tem o governo parcial da Autoridade Palestina, muito enfraquecida, mas que almeja participar da possível formação de um Estado. Entretanto, o plano traçado por Trump e Netanyahu apenas diz que os EUA patrocinarão um diálogo entre Israel e palestinos por uma coexistência pacífica. Falta saber se haverá uma chance de cicatrizar a violência desde 7 de setembro de 2023, quando o Hamas causou 1,2 mil mortes e tomou 251 reféns. Desde então, 468 militares israelenses e 67,8 mil palestinos morreram na guerra. São números que provam a urgência de um plano de cessar-fogo, mas ainda sem a certeza de que essas perdas serão suficientes para viabilizar uma paz regional duradoura.