A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos desrespeita o direito internacional e contraria os princípios das Nações Unidas. A operação também é um mau exemplo, como se justificasse que a Rússia pode dominar a Ucrânia e a China ocupar Taiwan, assim como potências regionais atacarem países vizinhos. A reprovação à intervenção não significa algum tipo de apoio ao ditador Nicolás Maduro, muito pelo contrário. Ele tem em seu currículo repressão violenta a opositores e à imprensa livre, domínio das instituições de Estado, como o Judiciário, e uma gestão desastrosa na economia que causou a emigração de 8 milhões de venezuelanos, um quinto da população. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para piorar, as declarações de Donald Trump e de seu secretário de Estado, Marco Rubio, após a deposição de Maduro, são preocupantes. O presidente disse que ampliará o “domínio no Hemisfério Ocidental”, que os EUA governarão a Venezuela e que as petroleiras americanas entrarão em solo venezuelano, onde está a maior reserva do mundo. Ontem, as ações dessas companhias subiram ao redor de 10%. Na visão da Casa Branca, um aumento de oferta, como pressão para reduzir o preço do barril, é bem-vindo para segurar a inflação. Contudo, a indústria petrolífera venezuelana está sucateada e vai exigir mais do que três anos de mandato de Trump para se reerguer. Mas a prisão de Maduro não dá um desfecho à crise da Venezuela. Apesar da grande operação com a armada americana no Caribe para depor o casal Maduro, os EUA não ocuparam o país. O regime chavista continua no poder, com a presidente interina Delcy Rodríguez e ministros. Além disso, Trump e Rubio refutaram a possibilidade do grupo de María Corina Machado, que reivindicou a vitória na eleição, assumir o governo. A alegação foi de que ela não teria condições de conduzir politicamente o país, indicando que a democracia pouco importa para a Casa Branca, mas uma solução, seja ela qual for, que exija menor envolvimento presencial dos EUA. Isso porque a base trumpista é avessa a operações dos EUA no exterior, assim como os meios de comunicação americanos ressaltam o fracasso pós-invasão dos EUA no Afeganistão e Iraque. Os afegãos voltaram para as mãos dos talebans enquanto os iraquianos vivem sob interferência dos países vizinhos. No caso da Brasil, por enquanto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém a linha moderada típica da democracia brasileira, tal como o comedimento frente ao tarifaço. A condenação pelo Brasil foi feita na ONU, mas sem atacar Trump, ao contrário do colombiano Gustavo Petro nas redes sociais. Por aqui, o impacto mais visível é o eleitoral, dando gás ao lema da soberania, que deu popularidade a Lula. Já a direita, pelo menos parte dela, tenta evitar a ideia de que a intervenção é bem-vinda. Mas é preciso ver até onde Trump pretende ir. Ele bate forte e depois flexibiliza sua posição. Se não fizer isso, terá que se envolver mais profundamente com a Venezuela.