(Marcelo Casal Jr./Agência Brasil) O sistema agressivo de tarifas do Governo Trump já começou a causar efeitos na inflação tanto no Brasil como nos Estados Unidos, mas com rumos opostos. No País, o tarifaço ajuda a reduzir os preços, enquanto encarece para os americanos. Esse processo, nas duas economias, ocorre de forma moderada, concentrada em alguns produtos e conectado à política monetária de ambos os países, que têm juros altos há vários meses, restringindo remarcações. No caso do Brasil, o resultado é mais vantajoso (os preços caem), mas não se deve pensar que as sobretaxas no fim das contas têm benefícios. O País possui exportações taxadas em 10% ou 50%. No primeiro caso, 694 itens ficaram em linha com as tarifas impostas ao restante do mundo, mas no segundo as vendas externas se tornam inviabilizadas. Isso traz perdas de empregos e danos severos às empresas e cidades que têm suas vendas concentradas nos Estados Unidos, com baixa capacidade de realocá-las para outros compradores. Por exemplo, o café e as carnes podem ser direcionados a outros compradores, diferentemente de frutas e pescados. Há comunidades de pescadores que tiravam seu sustento de negócios com os americanos e pequenas empresas que, por seu porte modesto, tinham um ou outro cliente externo. Daí a importância do plano de contingência ser pontual também nesses casos. A inflação no Brasil está em 5,23% ao ano ao consumidor (IPCA) e, devido à Selic elevada, tem recuado de forma mais disseminada. Além disso, os índices gerais de preços (IGP-M e IGP-DI), que registram mais o atacado e câmbio, também apontam desinflação. Economistas acham que carne e café, itens dos que mais subiram, ficarão mais baratos devido às exportações punidas pelos EUA. Mas tudo vai depender do ritmo em que os exportadores brasileiros acharem outros compradores. Nos EUA, a inflação depende de quanto os importadores e supermercados americanos vão conseguir segurar os repasses das tarifas para não subir os preços. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do país está em 2,7% ao ano, um nível razoável para os juros começarem a cair por lá, mas preocupando por registrar pressões das tarifas. O brasileiro Wesley Batista Filho, da JBS USA, que processa um quarto dos bovinos consumidos nos EUA, diz que o produto moído, usado em hambúrgueres, subiu 12% em julho – as carnes já estavam em alta por falta de oferta, mas ganharam empurrão extra com os importados tarifados. Austrália e outros produtores tentarão substituir o Brasil, o que o Batista acha difícil pela quantidade fornecida pelo País. O caso dos EUA é mais complexo ainda porque Trump pressiona o Federal Reserve (Banco Central local) para os juros caírem, o que poderá causar mais inflação no médio prazo. Quando os governos tentam de forma demagógica interferir nas instituições para obter popularidade e resultados nas urnas, os efeitos negativos se tornam uma ameaça de maior intensidade.