Um dos presidentes dos Estados Unidos mais contestados em décadas, Donald Trump reabilitou governos ou partidos condenados à derrota eleitoral, como no Canadá e na Austrália, e deu a Luiz Inácio Lula da Silva o tema da soberania, melhorando a popularidade do petista e conferindo competitividade à campanha pela reeleição. É também possível que o americano consiga causar efeito contrário ao do que busca no Brics, que ainda é um bloco praticamente no papel, ensaiando os primeiros passos, com membros que têm interesses opostos ou são concorrentes no comércio e na política internacional. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O Brics foi originalmente formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O Brasil não queria ampliar o bloco, mas a China conseguiu convencer os países-membros de que convidar novos sócios ajudaria a fortalecê-lo, o que trouxe a Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Com governos autoritários, como Irã, Arábia Saudita e Egito, o Governo Lula passou a enfrentar o dilema de se aproximar de nações com esse perfil, que, não se pode esquecer, também se verifica na China e Rússia. Porém, para o Brasil, ainda mais na diplomacia do governo petista, formar um bloco em paralelo aos das antigas potências econômicas, sem necessariamente se opor a elas, faz todo o sentido. A ideia é melhorar o comércio dentro do Brics e defender seus interesses. No semestre passado, Lula despertou a fúria de Trump por defender moedas alternativas para as trocas dentro do Brics. Alguns analistas acharam que esse caso foi definitivo para a Casa Branca impor tarifas mais altas ao Brasil, conclusão que perdeu força após a veemência com que Trump passou a se pronunciar pelo fim do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. O Brasil é historicamente neutro, sem se alinhar a uma potência. Mas, no curto ou médio prazos, poderá enfrentar alguns dilemas, pois a China, agora desafiadora dos Estados Unidos, está dentro do Brics. Apesar de não ter ocorrido no âmbito do bloco, a China, em um evento com parceiros asiáticos, atraiu os líderes da Rússia e Índia, com a qual já teve conflitos de fronteira. Pequim também fez um impressionante desfile de seu poderio bélico, mostrando sua condição de potência. A dúvida que fica é se o Brics vai se consolidar com a ajuda de um país-membro tão forte ou se vai ser envolvido por ele. Este último caso nada interessa ao Brasil, que não tem nada a ver com a geopolítica asiática nem precisa assumir um dos lados. O Brasil deve sim investir no que tem feito nos últimos meses, também por influência de Trump, buscar novos mercados. Por outro lado, o País tem que almejar maior autonomia científica, sem tentar fazer tudo sozinho, pois isso teria alto custo, sob risco de fracassar. Para atingir seus objetivos, não pode ter as contas públicas altamente deficitárias, nem admitir sua baixa competitividade, acelerando a melhora de seus tímidos resultados recentes com saúde e educação.