[[legacy_image_287171]] A intenção da Secretaria Estadual da Educação, divulgada pela imprensa no começo do mês, de trocar os livros da rede pública (a partir do 6º ano) por material digital se tornou uma grande polêmica. Houve ainda outros ingredientes, que ganharam contorno político, de que tal medida implica em abrir mão de 10 milhões de exemplares gratuitos (livros em papel) do Ministério da Educação. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que parece ter notado combustível para ataque da oposição, decidiu que a digitalização não será total e que as escolas estaduais poderão imprimir o conteúdo. Além disso, o secretário Renato Feder também fez questionamentos ao conteúdo do material federal, previamente definido pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que não é uma criação petista e existe há 80 anos, sendo reestruturado no Governo FHC. De acordo com o secretário, em entrevista ao jornal O Estado de S, Paulo, o currículo do PNDL é muito extenso e ficou “raso, superficial”. O secretário completou disse ter equipe de 100 professores encarregada de definir o conteúdo. Trocar o livro físico por material digital, que não se resume apenas ao equivalente on-line, mas também a mapas e gráficos integrados a uma lousa moderna, é, no linguajar das startups, uma disrupção – uma quebra de paradigmas. Não se trata de uma tarefa simples, pois envolve 1,4 milhão de alunos e milhares de professores com padrão socioeconômico e reação ao digital diferentes. Além disso, muitos estudantes pobres podem ter dificuldades de acesso a computadores, celulares e internet, realidade conferida com o ensino remoto na pandemia. A inovação tecnológica é bem-vinda e propicia uma inegável aceleração da aprendizagem. Porém, uma mudança tão profunda merece ser amplamente discutida. Não para decidir se ela é necessária, é óbvio que sim, mas com que rapidez e como deve ser implantada, ouvindo professores, que conhecem a limitação das escolas. Os especialistas em educação há tempos estudam e debatem essa migração pelo mundo. O portal g1 trouxe ontem dados interessantes sobre o ensino sueco, pioneiro no uso apenas do livro digital. Por lá, os gestores encontraram pais que, por não se adaptarem ao material on-line, não conseguiam ajudar os filhos com as tarefas, e crianças ficando muitas horas por dia olhando para telas. Por outro lado, educadores dizem que o manuseio de livros gera curiosidade extra nas crianças e estimula a leitura. Por fim, a Suécia decidiu retomar o material físico simultaneamente ao digital. Há ainda dúvidas sobre como estruturalmente será a impressão do material digital – se virá pronta do governo ou exigirá mais impressoras, tinta e folhas A4 (papel sulfite) nas escolas, ou se haverá critérios para distribuir esse material. São muitas questões novas, da didática à infraestrutura pública, que não podem deixar para serem resolvidas em cima da hora.