A notícia de que o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, de 0,4% (na comparação com o primeiro), desacelerou passa a impressão de que a atividade econômica piorou. Na verdade, o PIB de abril a junho não foi ruim, apenas perdeu o vigor de janeiro a março, de crescimento de 1,3%. O mercado de trabalho tem gerado menos vagas, mas a massa de salários continua aumentando e, somada aos recursos dos programas sociais, mantém o consumo das famílias como motor da expansão. Os economistas estão de olho neste semestre, quando se imagina que o impacto da Selic de 15% ao ano vai desaquecer mais o País. Como os juros altos encarecem o crédito de produtos de maior valor, geralmente comprados a prazo, deverá haver uma freada mais forte. Porém, não se fala em recessão. O Boletim Focus, pesquisa do Banco Central com as expectativas dos analistas, aponta para um PIB de 2,19% neste ano. Mas quem se decepcionou mesmo deve ter sido o Banco Central, que aguarda um esfriamento da economia para controlar a inflação. Hoje ela é de 5,23% e está em queda, com o Focus apostando em 4,85% em dezembro. O problema é que o consumo das famílias é a conta do PIB que mais pesa sobre os preços. Os setores que dependem de financiamento, como construção e bens de capital (máquinas e equipamentos), tiveram desempenho negativo. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) perdeu 2,2%. A FBCF representa o investimento, fundamental para aumentar a capacidade produtiva e gerar empregos de maior valor agregado, além de atrair capitais. Se a FBCF vai mal é porque o País tem problemas de desempenho. Para melhorar o nível de investimentos não basta reduzir o custo do financiamento. É preciso capacitar a mão de obra e tributá-la menos, assim como investir em infraestrutura, fundamental para o ganho de eficiência na produção. Das principais contas que formam o PIB, o consumo das famílias cresceu 0,5%, enquanto o do governo caiu 0,6%. Os serviços subiram 0,6% e a indústria, 0,5%. A agropecuária recuou 0,1%, o que pode ser considerado um efeito estatístico sobre o primeiro trimestre excepcional, de alta de 12,2%. Como as safras impactam mais a economia na primeira metade do ano, o agronegócio deverá manter desempenho mais moderado agora. O PIB do segundo trimestre não traz o efeito do tarifaço do Governo Trump porque a taxação começou em agosto. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável por essa estatística, lembra que as exportações pesam menos do que o consumo das famílias e serviços no PIB. De qualquer forma, o governo segue aquecendo a demanda a um custo elevado sobre a dívida pública, enquanto o BC tenta segurar o PIB para reduzir a inflação. O desempenho do PIB é louvável, mas a estratégia para manter tal ritmo é equivocada. O certo seria uma política de baixo gasto público, com uma Selic inferior, resultando em crescimento perene.