(Marcello Casal Jr/Agência Brasil) As transações correntes fecharam o ano passado com déficit de US\$ 68,8 bilhões. Essa conta considera todas as entradas e saídas em moeda estrangeira, como balança comercial (exportações menos importações), viagens, dívidas e remessas das multinacionais. O número impressiona, lembrando que é o maior desde 2014 e tem permanecido no vermelho pelo menos há dez anos. Mas as entrelinhas dessa conta indicam que esse resultado não é tão ruim, e até apresenta sinais da reação da economia. Isso porque o Banco Central ampliou as reservas internacionais de US\$ 329,7 bilhões para US\$ 358,2 bilhões, um colchão para eventual falta de capitais externos, porém, com economistas afirmando que não deveria ser tão elevado. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Contudo, um saldo negativo exige financiamento também externo para cobrir os compromissos que o Brasil tem fora de suas fronteiras. Como o País enfrentou uma fenomenal crise por falta de dólar nos anos 1980 e 1990, motivada pela alta do petróleo e dos juros que inflaram a dívida com nações ricas, não se deve menosprezar os riscos. Basta lembrar que há alguns anos correntes mais radicais da esquerda sugeriram usar as reservas internacionais para estimular a economia, causando inflação e ameaçando a proteção que se tem com as reservas do BC. O governo apontou como principal responsável pelo déficit de US\$ 68,8 bilhões o recuo de 8,9% da balança comercial, de US\$ 60 bilhões no ano passado, sobre 2024. A desvalorização do dólar, assim como as tarifas dos EUA, e a queda dos preços de algumas commodities (minérios e agropecuários com preços negociados em bolsa) encolheram o saldo de exportações e importações. Entretanto, o investimento direto no País (IDP) veio muito forte em 2025, com US\$ 77,6 bilhões. Essa conta se refere aos capitais internacionais que entraram no Brasil para o setor produtivo, como fábricas, uma captação que acabou ajudando a financiar com folga a saída dos recursos por outros motivos, como pagar uma dívida externa. Segundo o Bradesco, em reportagem do jornal Valor Econômico, o IDP tem aumentado e deve continuar robusto neste ano. Já o chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, e o Itaú apontam que o déficit das transações correntes veio mais forte devido às remessas ao exterior. Ao mesmo tempo em que as multinacionais lucraram mais, o que é um sinal de economia aquecida, essas empresas decidiram antecipar o pagamento de dividendos (distribuição de lucro) dos próximos anos. Trata-se de um esforço para escapar do Imposto de Renda, que começa neste ano, o que também foi feito pelas companhias brasileiras. Neste último ponto, o País perde recursos que poderiam ficar por mais tempo internamente, no caso das múltis com planos de uma expansão mais rápida. Apesar do rombo externo, o problema do País na verdade é o fiscal, com o governo gastando mais do que arrecada, com os juros altos ampliando o endividamento público.