(FreePik) “Antes, a insegurança dos nossos filhos era eles irem para a rua, mas agora a insegurança está dentro de casa, no celular”. O desabafo é de Cássio Maurílio, pai da menina Sarah Raíssa, de apenas 8 anos, que morreu em Ceilândia (DF) após inalar desodorante em um desafio pela internet. O caso expõe a necessidade mais do que urgente de regulação das redes sociais. Se nos temas ligados ao universo dos adultos a questão esbarra na ameaça à liberdade de expressão, quando o assunto é a segurança das crianças não existe razão aceitável para deixar tudo como está. Sarah teria assistido ao desafio no TikTok. Por mais que a ideia maligna tenha partido de um ou mais usuários, a plataforma deveria dispor de uma trava que impedisse a veiculação de vídeos cujo conteúdo pode provocar danos a quem ainda não tem completa compreensão daquilo a que assiste. É claro que a ausência de controles por parte das plataformas não exime os pais da responsabilidade. Contudo, chega a ser covardia imaginar que alguém, por mais atento e cuidadoso que seja, é capaz de filtrar tudo aquilo a que uma criança assiste no celular. Trata-se de uma profusão de vídeos e imagens pipocando de todos os lados, o tempo todo. Por isso, outra dificuldade natural é tirar o telefone celular da mão das crianças, cada vez mais afeitas ao uso ininterrupto. A morte de Sarah é a segunda de uma criança brasileira associada à divulgação do chamado Desafio do Desodorante em apenas um mês. Em 9 de março, Brenda Sophia Melo de Santana, de 11 anos, faleceu em Bom Jardim (PE), a cerca de 100 quilômetros de Recife. Nos últimos anos, 50 menores de idade, entre crianças e adolescentes, morreram depois de serem induzidos a cometer crimes em plataformas na internet, segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro. Diante de um cenário como esse, é mais do que urgente o enfrentamento do problema. Na última terça-feira, a Polícia Civil do Rio iniciou a operação Adolescência Segura, em sete estados, com o objetivo de desarticular uma das maiores organizações criminosas do País voltadas à prática de crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes. Ao menos dois adultos foram presos, e sete menores apreendidos em Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Entre os crimes investigados estão tentativa de homicídio, induzimento e instigação ao suicídio, incentivo à automutilação, armazenamento e divulgação de pornografia infantil, maus-tratos a animais e apologia ao nazismo. A investigação revelou que o grupo se organizava virtualmente, por meio de plataformas criptografadas como Discord e Telegram, nas quais promoviam desafios e competições, sempre de crimes de ódio. Novos tempos pedem novas abordagens para garantir que os avanços tecnológicos não se desviem de sua finalidade e se tornem uma ameaça não só aos mais jovens, mas à humanidade em geral.