(Alexsander Ferraz / AT) A mais recente edição da pesquisa Oceano sem Mistérios: A relação dos brasileiros com o mar – Evolução de Cenários (2022–2025) revela um avanço relevante, mas ainda insuficiente, na consciência ambiental da população. Realizado pela Fundação Grupo Boticário, em parceria com a Unesco, o programa Maré de Ciência da Unifesp, campus Baixada Santista, e outras instituições, o estudo mostra que 87,6% dos brasileiros afirmam estar dispostos a mudar seus hábitos em favor do oceano — um crescimento de 5,4 pontos percentuais em relação a 2022. O dado, à primeira vista, é alentador. No entanto, o mesmo levantamento indica que apenas 7% efetivamente participaram de alguma ação concreta de conservação marinha nos últimos 12 meses. A diferença entre querer e fazer continua sendo o maior abismo a ser transposto. O Brasil, dono de uma das maiores zonas costeiras do planeta, ainda trata o oceano como um cenário de contemplação, e não como um sistema vivo que sustenta o clima, a economia e a própria sobrevivência humana. A pesquisa mostra que nove em cada dez brasileiros reconhecem o aumento do nível do mar como uma ameaça real e 85% compreendem a ligação entre o aquecimento das águas oceânicas e os eventos climáticos extremos — mas quase metade ainda acredita que suas ações pessoais não têm impacto sobre o oceano. O resultado é uma sociedade cada vez mais informada - fator altamente positivo -, mas pouco engajada, em que a consciência ambiental cresce em ritmo superior ao da responsabilidade coletiva. O Maré de Ciência, da Unifesp, vem desempenhando papel fundamental ao aproximar a pesquisa acadêmica da população, traduzindo o conhecimento científico em ações educativas e comunitárias. A continuidade e o fortalecimento de programas como esse são fundamentais para que o País avance da sensibilização à transformação de comportamento. Às vésperas da COP 30, que será em Belém, o Brasil tem uma oportunidade histórica de liderar a pauta oceânica global. Mas isso exige mais do que discursos — requer políticas públicas integradas, incentivos à economia azul e uma educação ambiental que vá além da teoria. Converter consciência em ação significa transformar intenção em compromisso diário: reduzir o consumo de plástico, apoiar projetos de restauração marinha, cobrar das empresas práticas sustentáveis e, sobretudo, fazer do voto um instrumento de mudança. As eleições gerais de 2026 precisam incluir o oceano nas plataformas dos candidatos. Este é o momento para exigir compromissos reais com a proteção dos ecossistemas costeiros, com a transição energética e com a adaptação às mudanças climáticas. Já foi ultrapassada a ideia de que o oceano é apenas de contemplação: é fator de economia, desenvolvimento e manutenção de um planeta habitável para as futuras gerações.