(Paulo Pinto/Agência Brasil) A crise do abastecimento de energia elétrica na Capital, após cada extremo climático, deve ser acompanhada de perto por suas implicações. Desde o efeito impressionante das chuvas e ventanias na zona urbana, e o que pode ser implantado para amenizá-lo, até o relacionamento dos governos com empresas de serviços privatizados, que tem implicações eleitorais. De concreto, há uma repetição dos prejuízos dos moradores que permanecem dias seguidos sem luz, como produtos que estavam na geladeira e medicamentos que dependem da refrigeração. E, nesta última vez, os lojistas contam as perdas após deixarem de vender na melhor época do ano. Na Região Metropolitana de São Paulo, a concessionária Enel tem enfrentado grande dificuldade para atender a demanda emergencial após os extremos climáticos. A intensidade desses fenômenos não serve como justificativa para a companhia, pois eles são reincidentes e a empresa deveria ter apresentado pelo menos uma evolução na qualidade das respostas. Mas a reação das autoridades também não é das melhores. A Prefeitura de São Paulo precisa revisar a gestão das podas e a manutenção das grandes árvores, assim como enterrar a fiação elétrica nas regiões mais problemáticas. Os custos são altos, porém, é o que precisa ser feito para evitar o colapso urbano. O que se pode esperar é que chuvas e ventanias devastadoras tendem a ocorrer cada vez mais e com maior força. Por isso, pouca serventia tem, a cada ocorrência, haver xingamento constante entre os políticos e concessionárias sem que nenhuma solução relevante e duradoura saia do papel. Na questão contratual da Enel, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) acionou a Justiça para evitar a renovação antecipada da concessão, que termina em 2028. E o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), assim como o Tribunal de Contas da União, pediu intervenção federal, enquanto o Ministério de Minas e Energia criticou uma “disputa política” no debate. Ontem, a pasta afirmou que a empresa poderá perder o contrato se não cumprir metas e obrigações, e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou rigor na fiscalização. O ministro Alexandre Silveira disse ainda que fez alertas à Agência Nacional de Energia Elétrica desde 2023 e que vai procurar Tarcísio e Nunes para “alinhar responsabilidades”. Já a Enel afirmou que a ventania destruiu “infraestrutura elétrica” e que precisará reconstruir a rede em alguns pontos. Considerando que já há ataques nas redes sociais aliando os problemas de São Paulo à privatização, e que a gestão das estatais e a possibilidade de vendê-las estarão na campanha eleitoral, um acirramento dessa discussão ameaça adiar as soluções adequadas para o curto, médio e longo prazos, pois isso depende de diálogo. Não apenas São Paulo, mas todas as cidades precisam de protocolos locais e nacionais de reação às calamidades climáticas e investimentos de maior porte para adequar a urbanização às instabilidades do século 21.