(Antonio Cruz/Agência Brasil) Em sua viagem pela Ásia, após encontro com o americano Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sai com um imenso capital político a um ano da eleição. Entretanto, essa reunião, de início bem-sucedida, precisa ter resultados objetivos – o principal é a retirada da tarifa de 40% sobre as exportações brasileiras (a de 10%, adotada sobre todos os países, deve ser mantida). Os dados da balança comercial indicam que o agronegócio conseguiu realocar suas vendas para outros países, mas é inadmissível que a produção do País fique de fora do maior mercado mundial. Além disso, há pequenos produtores, como os de pescados, e muitas indústrias que exportavam quase que totalmente para os EUA, sofrendo um revés em suas receitas abruptamente. O encontro à margem da cúpula do Sudeste Asiático, na Malásia, foi marcado por afagos de Trump a Lula, que surfou a onda favorável. Horas depois, questionado pela imprensa sobre as negociações, Trump disse “vamos ver o que acontece”, não se comprometendo com resultados. Enquanto o Brasil tenta suspender, primeiro temporariamente e depois em definitivo, as tarifas, os Estados Unidos buscam derrubar as barreiras ao etanol de milho, evitar a taxação das gigantes da tecnologia e ter acesso às terras raras. Os data centers, unidades de armazenagem e processamento de dados, que consomem muita energia, mas são essenciais para a febre do momento, a inteligência artificial, são uma ambição do Brasil. A ideia do Brasil é desenvolver internamente os equipamentos necessários para essas unidades e conseguir transferência de tecnologia. O País não quer se tornar apenas uma base de operação, em uma situação parecida com as colônias de antigamente. As primeiras conversas e declarações públicas indicam que Trump busca uma negociação comercial, sem condicionar a posição dos EUA à aliança da Casa Branca com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Por outro lado, Lula acertou ao levar, pelo menos até agora, para a mesa de discussões uma retórica objetiva, neutra, de viés econômico, de que o Brasil tem déficit comercial com os EUA e que, por isso, o tarifaço não tem sentido. Também se deve reconhecer que a diplomacia brasileira demonstra até agora muita competência, aliás, sua característica há décadas. Falta saber quanto tempo essa negociação vai consumir. Fala-se em algumas semanas, algo irreal, considerando-se o que se verifica entre os EUA com outros países, como Canadá, Índia e principalmente China. Portanto, é mais provável que o desfecho fique para o próximo semestre. Apesar de ter ficado claro que o fator Bolsonaro foi retirado pela Casa Branca para conversar com o País, os negociadores americanos poderão usar as sanções às autoridades brasileiras como trunfo para obter concessões comerciais. Já o Brasil, por ser uma economia de grande porte associada à China, forçará os EUA a não abrirem mão de um parceiro tão importante na América Latina.