(FreePik) Mais de 87% da população brasileira vive hoje em áreas urbanas, segundo dados do IBGE — um retrato claro de como o País se transformou ao longo das décadas. Cidades que antes guardavam respiros de silêncio e espaços livres, com ruas tranquilas, praças generosas e áreas de lazer acessíveis, deram lugar a um processo acelerado de adensamento. A verticalização e a especulação imobiliária suprimiram esses vazios urbanos, muitas vezes sem o devido planejamento. O que antes era ponto de encontro das famílias, cedeu espaço ao concreto, ao trânsito e à lógica da eficiência econômica. A cidade cresceu, mas cresceu deixando para trás parte de sua vocação mais humana: a de ser espaço de convivência. Nesse contexto, a iniciativa “Vem pra Orla”, promovida pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Santos) e iniciada ontem, representa um avanço expressivo na tentativa de encontrar brechas no cotidiano urbano para promover o lazer e a convivência. Ao reservar parte da avenida da praia para uso exclusivo da população durante quatro horas aos domingos, o poder público acerta ao valorizar um dos espaços mais simbólicos de Santos como lugar de encontros, experiências e vínculos. Com previsão de ocorrer até setembro — e interrupção apenas em caso de chuva —, o projeto abre a pista no sentido José Menino/Ponta da Praia, entre a Avenida Ana Costa e o canal 6, para usos que vão além da lógica da circulação de veículos. Crianças, jovens, adultos e idosos poderão caminhar, pedalar, brincar ou simplesmente aproveitar o tempo ao ar livre. Estão previstas atividades lúdicas e educativas, como orientação sobre segurança viária, além de atrações para o público infantojuvenil. A proposta responde a uma necessidade cada vez mais urgente das cidades: recuperar o espaço público como bem coletivo. Com a verticalização e a densidade crescente, áreas livres tornaram-se raras, especialmente para as crianças. Muitas vezes, os únicos espaços disponíveis são fechados, pagos ou restritos. Ao oferecer uma alternativa gratuita e acessível, o “Vem pra Orla” reequilibra a equação urbana. Mais que lazer, o projeto sugere um novo paradigma: uma cidade que se adapta às pessoas, e não apenas aos carros. A escolha do horário é certeira: tráfego baixo e menor uso da faixa de areia. Vale lembrar que outras cidades já promovem ações similares, como a Avenida Paulista, em São Paulo, que fecha aos domingos para lazer e cultura. A iniciativa não deve ser vista como pontual. O “Vem pra Orla” pode funcionar como um laboratório urbano, um teste real de como a cidade pode — e deve — evoluir para colocar a vida em primeiro lugar. Que a população aproveite, participe e se aproprie desse espaço. E que os gestores acompanhem, ouçam e ampliem essa experiência para outras regiões. A cidade do futuro será mais tecnológica, sim. Mas, acima de tudo, mais humana. E isso começa com um gesto simples: fechar uma avenida para abrir possibilidades.