(Reprodução/X) A briga do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o chefe do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, exige relembrar as críticas de Luiz Inácio Lula da Silva ao Banco Central, quando gerido por Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro. Apesar das falas de Trump serem bem mais tempestivas, o americano e o brasileiro tinham o mesmo fim – reduzir os juros para estimular a economia. O mandato de Campos Neto terminou, substituído por um indicado de Lula, Gabriel Galípolo, um executivo da Avenida Faria Lima próximo do PT desde a campanha da eleição do petista. Galípolo em nada mudou a política de juros altos e o partido e Lula até demonstraram irritação, mas sem queixa pública contundente. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Agora Trump está sendo bem mais agressivo e objetivo que o brasileiro. A Casa Branca se mostra assustada com a possibilidade dos democratas tomarem o controle do Congresso neste ano. Por isso, Trump quer derrubar os juros desde já, pelo menos uns três pontos percentuais, como disse recentemente. Mas as críticas públicas nos EUA evoluíram para a prática com a decisão do Governo Trump de abrir uma investigação criminal contra Powell pelo gasto a mais de US\$ 700 milhões na reforma da sede do BC americano, de orçamento inicial de US\$ 2,5 bilhões. No fim de semana, o presidente do Fed perdeu a paciência e gravou um vídeo acusando Trump de tentar intimidá-lo para forçá-lo a reduzir os juros. A briga fez o dólar cair e o ouro e a prata subirem na última segunda-feira. O mandato de presidente de Powell termina em maio, permanecendo como diretor até 2028. O temor do mercado é se ele aguentará no posto nos próximos meses e se Trump indicará alguém independente, um princípio que dura desde 1951. A dúvida que se tem é se o escolhido pedirá o aval da Casa Branca para agir, algo que se perguntava no Brasil sobre Henrique Meirelles, que presidiu o BC por oito anos, nos dois primeiros governos Lula. Apesar da autonomia da autoridade monetária ter sido concedida por lei apenas com Bolsonaro, Meirelles exigiu liberdade, conforme disse ele em entrevistas, para permanecer no cargo entre 2003 e 2011. O caso de Powell está no centro das preocupações pela autonomia do Fed ser um dos pilares da estabilidade dos Estados Unidos. Enfraquecido o Fed, outros BCs, pressionados por governos populistas com interesses eleitorais imediatistas, poderão ruir. Deve-se lembrar que os juros altos para controlar a inflação foram a política mais adotada pelas economias mais importantes e, no Brasil, também ajudaram a derrubar os preços. Seu efeito trágico é um pacote formado por recessão e desemprego, que o Brasil conhece bem. Porém, a taxa básica elevada é resultado de gestões equivocadas e não motivo das crises. Com esse exemplo, a solidez e a reputação das instituições, não apenas da área econômica, são construídas com sacrifício e paciência, sendo fundamental fortalecê-las contra ataques que aparecem ao longo do tempo.