Foto ilustração (Reprodução/PRF) A megaoperação deflagrada na última quinta-feira contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) revelou, mais uma vez, a dimensão alcançada por uma facção criminosa que deixou de ser, há tempos, apenas um agrupamento de presidiários organizados em torno de um estatuto comum. O que se vê hoje é uma estrutura empresarial sofisticada, com poder econômico equivalente ao de grandes corporações nacionais. A ação mobilizou 1.400 agentes em oito estados, prendeu dezenas de pessoas e bloqueou R\$ 1,4 bilhão em bens. Foram identificados mais de mil postos de combustíveis, 40 fundos de investimento e uma rede de empresas ligadas ao setor energético e financeiro. Entre 2020 e 2024, esse braço do PCC teria faturado cerca de R\$ 52 bilhões apenas com o comércio de combustíveis, além de outros R\$ 10 bilhões na importação de gasolina. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os números impressionam, mas não surpreendem. Ao longo de três décadas, a facção expandiu sua atuação para muito além dos muros prisionais, tornando-se uma das mais poderosas organizações do continente. Na Baixada Santista, região estratégica pela proximidade com o Porto de Santos, o maior da América Latina, o PCC consolidou bases de logística e lavagem de dinheiro, aproveitando-se da vulnerabilidade social e da dificuldade histórica do Estado em oferecer respostas rápidas e coordenadas. Não se trata apenas de tráfico de drogas, mas de uma engrenagem complexa que envolve adulteração de combustíveis, crimes ambientais, evasão fiscal e infiltração em setores formais da economia. O episódio recente expõe um desafio central: não basta reprimir o crime visível, é preciso atacar suas fontes de financiamento. A facção, que hoje possui ramificações em pelo menos 28 países, domina técnicas de gestão, articulação internacional e uso de laranjas para ocultar recursos. Funciona como uma multinacional do crime, mas com disciplina interna, capacidade de adaptação e eficiência administrativa raramente vistas até em empresas legais. Diante desse quadro, impõe-se outro tipo de ação. O combate ao PCC não pode depender apenas de operações pontuais, por mais impactantes que sejam. Exige a integração efetiva das três esferas de poder — Executivo, Legislativo e Judiciário — em torno de uma estratégia de longo prazo. É necessário avançar em reformas legais que acelerem investigações financeiras, garantam proteção a dados sensíveis e punam com rigor os mecanismos de lavagem. Mais do que nunca, tecnologia e rastreamento de dados tornam-se aliados indispensáveis. Mapear transações, seguir fluxos digitais de capitais e identificar padrões ocultos é a única forma de enfrentar uma facção que se move com a agilidade dos grandes players econômicos. É inadmissível para a imagem do País que um grupo nascido nos presídios tenha alcançado tamanho poder sem que haja resposta institucional à altura. A sociedade cobra, e o Estado deve estar preparado para responder.