[[legacy_image_313206]] Apesar da força com que o peronista Carlos Massa saiu do primeiro turno da eleição argentina, na dianteira, as pesquisas já indicavam que seria difícil derrotar o libertário extremista de direita Javier Milei. Em meio ao ferrenho ataque do candidato do governo que o mostrava como um perigo para o país, Milei amenizou o radicalismo. Apesar de antes prometer varrer tudo que havia na política, ele atraiu o apoio do ex-presidente Mauricio Macri e a ex-adversária Patricia Bullrich. Também amenizou a ideia da liberação das armas e na venda de órgãos. No fim, venceu com 11 pontos percentuais à frente de Massa, com uma peculiaridade que só poderia se dar por lá: antes de que a divulgação da apuração oficial avançasse, teve a vitória reconhecida por Massa. Apesar de ter sido chamado de comunista e corrupto por Milei na campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o parabenizou de forma discreta e ontem já era admitido no governo que o petista não irá à posse do libertário no dia 10. Como o Palácio do Planalto se esforçou por ajudar o Governo Fernández, atuando por liberar recursos de instituição multilateral, o Banco de Desenvolvimento da América Latina, e enviando marqueteiros à campanha de Massa, automaticamente Lula e os petistas estão dentro da derrota peronista. Já os bolsonaristas apoiaram a fundo Milei. Essa participação dos brasileiros, assim como no caso da discussão sobre Israel e Hamas, virou briga nas redes sociais. Do lado concreto, da diplomacia e da economia, não se deve esperar rompimentos, mas um distanciamento, assim como Bolsonaro e Fernández. Milei não deve investir em brigas sérias com Brasil ou China, seus dois principais parceiros comerciais, mas a permanência da Argentina no Mercosul vai depender dos empresários locais e do Congresso, que dificilmente aceitariam um rompimento. De início, Milei deve se concentrar na economia, que está no pior dos mundos. O país não tem dólares para honrar compromissos externos (dívida externa e importações) e a inflação galopa cada vez mais rápido. Enquanto no Brasil ela está abaixo de 5% ao ano, por lá já supera os 140%. Não se sabe como ele vai se relacionar com o Congresso, do qual depende para dolarizar a economia e acabar com o Banco Central da República Argentina (BCRA). Talvez o bônus eleitoral o ajude, que é o período de começo de governo quando o Legislativo tende a pressionar menos o Executivo. No caso de Lula, devido à polarização, essa fase mal foi notada. Milei deverá investir em medidas mais emergenciais, como lançar um plano retumbante ou criar uma moeda alternativa para segurar a inflação, antes de retomar propostas extremas. Resta saber como Macri e Bullrich conviverão com Milei. O atual presidente Alberto Fernández acabou rompendo com sua maior aliada, Cristina Kirchner. Ele encerra de forma agonizante um governo desastroso, principal cabo eleitoral do libertário.