[[legacy_image_305225]] A impressionante seca que devasta o Amazonas serve de exemplo da profundidade com que as tragédias climáticas tendem a abater não só a fauna e flora, mas também milhões de habitantes. Por uma particularidade da imensidão da Floresta Amazônica, os rios são o principal meio de transporte no estado, mas satélites apontam que a área abrangida por eles está um terço menor e o nível do Rio Negro, que já atingiu pico de 30 metros, agora poderá ficar abaixo de 13 metros, um recorde desde que a medição começou em 1906 e que deve ser superado nos próximos dez dias – depois disso, estima-se que a fase chuvosa comece na Região Norte. Enquanto a seca continua, não há navegabilidade na região de Manaus, no sul próximo de Rondônia, no oeste, perto da fronteira com a Colômbia e o Peru, e nem no norte, de Barcelos a São Gabriel da Cachoeira. São alimentos, a produção agrícola e a pesca, materiais de construção e até o transporte para os filhos dos ribeirinhos estudarem que deixaram de ser atendidos. Mesmo o Negro e o Solimões (que se torna o Amazonas após o encontro com o Negro) sofrem com a falta de chuvas, enquanto no entorno de Manaus as embarcações estão presas nas margens esvaziadas. Os lagos Tefé, onde 100 botos morreram, e Coari já secaram. A seca é sazonal na Amazônia, mas este ano ela atingiu níveis extremos provocados pelo El Niño, fenômeno que esquenta as águas do Pacífico, o que altera as correntes de ventos e a intensidade das chuvas em várias partes do planeta. Na Região Sul, o efeito foi o inverso do Norte, com tempestades que causaram mais de 50 mortes e inundaram dezenas de cidades gaúchas. Para cientistas a força do El Niño neste ano, que é o considerado o mais quente já registrado pela agência americana NOAA (sigla em inglês para Administração Oceânica e Atmosférica Nacional), está relacionado às mudanças climáticas. De acordo com o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, a temperatura global está 0,52°C acima da média e, na Europa, setembro foi 2,51°C mais quente em relação ao período de 1991 a 2020. No caso do Amazonas, o Governo Federal liberou R\$ 324,3 milhões para ações de saúde, defesa civil e moradia. Pelo menos 6 mil famílias perderam suas casas ou ficaram isoladas. No Amazonas, a seca potencializa o risco de incêndios, que facilitam o trabalho dos inimigos da floresta para atividades de mineração, pastagem e contrabando de madeira e peixes. Com futuros reflexos catastróficos, populações por todo o globo terão que migrar temporariamente ou até mesmo de forma definitiva devido à seca ou enchentes. Frente a tantos problemas climáticas, os governos precisam reforçar a fiscalização contra o desmatamento, ao mesmo tempo em que precisam estimular atividades econômicas sustentáveis e que convivam em equilíbrio com as matas. Porém, as propostas demoram a sair do papel para a prática.