( Imagem Ilustrativa/Dan Gold/Unsplash) Estou na sua cidade. Só de passagem, hoje mesmo vou embora. É a segunda vez que venho, na primeira foi você que me apresentou. Ando pelas ruas pouco conhecidas, e não vejo motivo em ficar: você não está mais. A cidade não mudou nada, parece nem ter crescido, nem diminuído. Atravesso o jardim, vejo que reformaram a fonte, o que é bom, mas a grama não está podada e isso passa uma sensação de desleixo. Em um canto, crianças brincam de correr; em outro, dois bêbados estão deitados nos bancos de jardim, um de frente para o outro. O vírus da pressa que assola o mundo parece não ter chegado por aqui, a vida anda no passo justo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A rua do comércio sim, mudou muito. Há agora lojas de celulares, games, lojas de 1,99; as papelarias e armarinhos sumiram. Um homem passa montado a cavalo, conheço bem esse som de ferradura no paralelepípedo, é o mesmo da minha terra. Lembro que caminhamos por aqui, você me contou da sua estranheza em não reconhecer mais ninguém, tanto tempo morando fora. Acho que antes havia mais árvores, ou foi a fornalha de hoje que me passou essa impressão. Entro no mesmo bar em que estivemos, e ele não melhorou muito. Reconheço os azulejos brancos e azuis, até a foto meio amarelada do time local na parede. Lembro uma passagem surreal: pedimos uma cerveja e perguntei o que tinha para beliscar. O garçom estranhou: – Como assim? – É, uns aperitivos, tira-gostos, para acompanhar a cerveja. – Ah, sei – e nos trouxe um paliteiro e uma porção de ervilhas (!). Peço um café e um pão de queijo. Os dois estão bons – afinal, estamos em Minas. Quando aqui estive, você me mostrou sua escola, a casa do seu tio que chegou a prefeito, a do seu primeiro namorado. Nunca fomos namorados, nem ao menos houve um olhar diferente, nosso bem-querer era de outro tipo, igualmente precioso. Ouvi falar de uma cidade de anjos. Talvez você more por lá agora. Acho estranho: imagino bilhões de anjos vagando, fazendo supermercado, regando flores, comprando vestidos, dando rasantes sobre nuvens. Ou não, anjos não precisam de nada disso? O que fazem? Qual a graça de ser anjo, então? Olho para a igreja matriz, está fechada. Dentro não há nem gente, nem anjos. Uma maçada mesmo. É isso: estou na sua cidade, por pouco tempo. Nem sei o que vim fazer aqui, na verdade. Procurar você, talvez, mesmo sabendo que isso não faz sentido algum. Atravesso de volta o jardim sem flor (qual o sentido de um jardim sem canteiros?). Hoje mesmo vou embora.