(FreePik) A esquina me espera a poucos passos. É minha meta e sina. Caminho pela calçada com passos vacilantes. Não há guarda, profeta do fim do mundo ou folheto de imobiliária me preparando para o que virá. Quando eu virar a esquina, haverá uma facada ou um beijo; posso encontrar um despacho com vela e farofa ou uma prostituta meio filósofa; uma banca de frutas de outra estação ou três carros afundados num alagamento. Posso até atravessar a rua e virar a outra esquina, em sentido contrário. Mas não farei isso. Não se brinca com o destino e o meu já está traçado: um buraco, a blitz policial, o abraço do leproso de Pouso Alto. Falta pouco, alguns metros, mas não tenho pressa. No meu caminhar murcho, transformo em minutos os segundos de chegar. Vitrines, buracos, folhas caídas e saias me atrasam pelo caminho. Estou de tênis, tento não pisar na grama. Estou descalço, procuro evitar as poças. Dou três passos pra frente, dois pra trás e um pulinho ridículo, que diverte a criança que surgiu na janela e não parece impressionada com o que vê. Não há sombra de árvores mas de toldos, o que me obriga a andar muito perto das grades e paredes, ao alcance dos ataques dos cães e das ofertas da Semana dos Calçados. Nos últimos meses, seis casinhas foram destruídas e dois prédios de trinta andares erguidos nessa calçada. O bairro que se transforma e não sei se para melhor. Chegam centenas de famílias e mudanças. A possibilidade de um vaso ou piano despencar em minha cabeça, portanto, cresceu. Mas meu santo é curioso: vai me poupar, me livrar dos perigos, me deixar chegar inteiro à esquina. E sei que, ao virá-la, adivinha quem vai estar me esperando: Ela. Mas ela quem? A glória, a infecção, a bandinha de música, a carestia ou ela mesma? Será? Um casal surge na esquina e vem ao meu encontro. Antes deles, foi uma manifestação. Que antecedeu a banda de música. Que sucedeu o hare krishna saltitante. Que convenceu o homem do casal a dedicar sua vida a vender incenso, enquanto a moça descobriu seu talento para tocar tuba na banda. Já a manifestação não convenceu ninguém. E se, ao virar a esquina, eu encontrar tudo igual, como se fosse uma continuação sem fim, nada de glorioso ou lamentável, apenas uma sucessão de prédios, buracos e tapumes da Sabesp, terei de caminhar nessa monotonia até uma outra esquina, depois outra, reacendendo a esperança, desafiando a monotonia, até o fim dos tempos? Falta pouco. O sinal fechou. Alguém grita. Vejo as horas. Aperto o passo. A luz pisca. O tempo fecha. Tenho medo. Ponho os óculos. Veja lá. Virar uma esquina parece fácil, não fosse a tal da vida.