(FreePik) Tenho a impressão, nunca a certeza, de que, de tanto falar, aquela farmacêutica tagarela uma hora vai se enganar com a receita. Desconfio que a Lei de Murphy é mais poderosa que a de Newton, já que é sempre maior a probabilidade do pão cair no tapete virado com a manteiga pra baixo. Tenho dúvidas quanto à eficácia das catiças e mandingas. Como acho que a pomba passou a manhã no fio, andando pra lá e pra cá, só aguardando que um cidadão passasse na calçada para treinar tiro ao alvo. Na estrada, me parece que o motorista que passa no radar a 60 km por hora, quando o limite de velocidade é 90 km/h, está convicto de que ganha 30 pontos de crédito, e assim poderá passar no próximo radar a 120 km/h, sem problema. Algo me diz que o celular fica obsoleto no instante seguinte à compra – e esse algo está certíssimo. Bem como aquela voz interior que me aconselhou anos atrás a não subir no cavalo, a não topar aquele emprego, e que também ignorei quando pedi a terceira saideira ao garçom. Eu tinha motivo para o arrepio quando o cachorro veio se aproximando com cara de zagueiro do Jabaquara. Sim, a chuva que durou o fim de semana inteiro vai passar no domingo de noite (umas onze da noite) e o sol voltará radiante para iluminar sua volta ao trabalho. Acho que nunca estive nessa casa antes – do contrário, reconheceria a cortina da mesma pavorosa estampa das almofadas. Impressão minha ou peguei o trem no sentido contrário? Para as cores que tingem o céu, se o sol se põe ou nasce não faz diferença alguma. No entanto, um faz a gente ficar meio melancólico e o outro nos causa um injustificado otimismo. Bem que ela disse que foi tudo impressão minha. Como identificar esse sentimento de que você está no caminho certo se não há guias nem mapas? Uma sensação de que alguém falou ao seu ouvido, mas você olha em volta e só há vento, areia, pedra e algumas gaivotas desajeitadas (não teriam coragem de dizer as verdades). A primeira impressão é a que fica, mas não estou certo se devia ser assim. A impressão de que só você ainda usa colete. Ou lê poesia polonesa. Engole o caroço da jabuticaba com polpa e tudo. Faz a barba começando pelo queixo. Prefere ir ao estádio em jogos desimportantes. A impressão de que os conteúdos das coisas já foram mais generosos ou guardavam alguma surpresa. Ou é você que não mais se impressiona facilmente? Sexto sentido? Bom senso? Conselho do além? Ou tão somente desculpa para toda essa indecisão? Sei que a impressão é como o vento: é real, você sente, às vezes até queima ou arrepia, mas afinal, quem foi que soprou? É impressão ou no fim das contas escrevo só pra mim? Ah, que seja: agora é tarde para recuar.