Imagem ilustrativa (Freepik) É com um quê de melancolia e nenhum orgulho que conto aos leitores que tomo oito remédios por dia. Um ainda em jejum, três no café da manhã, dois depois do almoço e dois antes de dormir. Concordo: é um exagero, uma loucura. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Até os 50, eu não precisava tomar remédio algum. Zero. Hoje, com 63, é essa festa. Já escrevi crônicas mais curtas que a lista de remédios da minha receita. Nesse ritmo, a indústria farmacêutica ainda vai erguer um busto em minha homenagem - faço questão de que seja em São José do Rio Pardo. Lembro que, quando menino, via meus tios e meus avós espalhando sobre a mesa um montão de remédios, das mais diversas cores e tamanhos, um exército disposto como num tabuleiro de War, e ficava muito impressionado. Pareciam balas sem vida e sem graça e, pela cara que eles faziam, amargos. Hoje sou eu que espanto meus filhos e sobrecarrego meu estômago. Não vou detalhar para que serve cada um. Um pouco por preguiça, um tanto por não querer aborrecer o leitor com essas questões. Além do que, detesto fazer o papel de coitado, da pobre vítima inocente das arapucas da vida. Sou tudo menos inocente: fiz muitas coisas em excesso pelo caminho - e me orgulho disso. Não maldigo os remédios: sem eles, eu estaria bem pior. Eles me ajudam, controlam minha pressão, o colesterol, a glicemia, por que eu falaria mal deles? Até construímos uma certa intimidade: eu os chamo de “minha rapaziada”. Criei certo bode, isso sim, de ir à farmácia. Antes, esse acontecimento banal durava cinco minutos: a gente entrava, mostrava a receita para o farmacêutico, ele nos entregava o medicamento, a gente ia no caixa, pagava e pronto - pá, pum. Hoje, não há cristão que passe ao menos 20 minutos dentro da farmácia, consultando acesso à Farmácia Popular, descontos de laboratórios, planos de saúde... Imagino que, um dia, não vou mais tomar remédios. Não esses, de nomes complicados e impronunciáveis. Eu mudaria para outros, muito diferentes, que valeriam para outras coisas: Um branco pequenino ajudaria a me lembrar das letras daqueles sambas antigos, tão bonitos. O branco grandão, difícil de engolir, seria para impedir que eu seja tão bocó. O rosinha, para me lembrar de parar o que estou fazendo para contemplar a Lua nascendo. O amarelo claro, quase bege, para não dar a mínima e até achar graça nos aborrecimentos sem importância. Um transparente, parecido com uma mini cápsula espacial, me permitiria voar apenas batendo os braços, sobrevoar a cidade e dar tchauzinho aos que ficam em terra, muito admirados. E o azulzinho seria para isso mesmo que você está pensando. Para completar, eu não os tomaria com água de filtro. Não: eu esticaria a mão para posicionar o copo debaixo do jorro de água cristalina da minha cachoeira particular. E os tomaria bem devagar, prestando atenção aos maravilhosos efeitos, que não tardariam. Falando nisso, terça que vem tenho médico. Ele deve me pedir um check-up anual, vamos ver no que dá. Doutor que não me venha com a prescrição de mais um comprimido. Mesmo grato a minha rapaziada, já acho que ela está de bom tamanho. Fora que seria preciso uma receita de duas páginas, o que é simplesmente humilhante. Espero também que ele não leia essa crônica. Do contrário, não vai ter jeito: vai acabar receitando alguma coisa contra devaneios e pensamentos delirantes. Mas isso tem remédio?