(FreePik) O reflexo na parede não tem nada de mais, é um fenômeno ótico banal. Tão comum que talvez seja exagero chamá-lo de fenômeno. É somente um raio de luz que incide sobre um objeto de vidro ou metálico – um relógio, uma pulseira, uma caneta – e reflete essa luz em uma superfície próxima. Em geral, um teto ou uma parede. Definição que serve para as pessoas normais. Para os seres estranhos feito eu, é algo bem mais complexo: a aparição de uma salamandra atômica enlouquecida que se move erraticamente pela parede. Um misto de meteoro e cometa em miniatura, que mexe pra lá, pula pra cá, com impressionante curiosidade. Quer desvendar as texturas e os limites da sala, corre pelas superfícies, sempre com pressa e gestos nervosos. Muito raro o reflexo na parede pausar alguns segundos. Ele parece estar sempre fugindo de alguma coisa, aflito. Daí talvez venha nossa simpatia. Claro que, quando alguém nos surpreende acompanhando os movimentos com um sorriso, logo vem com explicações lógicas e sem graça como: “é só a luz do sol entrando pela janela e refletindo no relógio daquele rapaz. O reflexo se mexe desse jeito porque acompanha os movimentos do braço”. Impressionante a falta de imaginação desse pessoal. Uma vez, vi o mesmo deslumbre em um cachorro: ele olhava maravilhado para um reflexo que corria no chão e tentava alcançá-lo. E você sabe: algo que diverte homens e cachorros só pode ser coisa bacana. Sem falar que ele tem uma função útil: por exemplo, desmascarar quem não está prestando a menor atenção à aula, ao discurso ou à reunião na empresa, e acompanha com os olhos, até com a cabeça, seu trajeto pela sala. Falando em aula, era uma diversão quando o reflexo dava as caras na sala e alguém o direcionava para o crucifixo na parede (eu estudava em colégio católico) ou até para a bunda do professor de costas para a classe. Era difícil conter a risada. Entre os meninos, a maturidade não tem a mesma pressa do reflexo. Ultimamente, quando descubro algum reflexo que se move, volto no tempo e o acompanho com a mesma fascinação de menino. Estranho é que a gente nunca se lembre de aproveitar o sol que entra pela janela para posicionar o relógio e causar o reflexo, nunca temos a intenção de provocá-lo, sua aparição é sempre de surpresa, involuntária. Favor não confundir com a luz emitida por essas canetas de laser, em geral verdes e direcionadas ao bandeirinha ou ao batedor de pênalti do time adversário – essa surge de propósito, não tem encanto algum, é antipática, invasiva, agressiva até. Enfim, o reflexo na parede, para uns, é uma bobagem. Para outros, é uma metáfora da vida: fugidia, breve e encantadora. Que, quando desaparece, deixa na gente (ao menos nos esquisitos) um pasmo, um vazio, uma tristezazinha difícil de medir – e de explicar.