A realidade pura da vida se encontra antes, através e após os indivíduos vivos (Freepik) Que a vida é um jogo, muito já se disse, virou lugar-comum. Resta saber qual deles: uns a vivem como um tabuleiro de War; outros, como se fosse o Banco Imobiliário; outros, como um interminável jogo de paciência. Ninguém nos convida a jogar, nossos pais é que resolvem nos colocar ali e, quando a gente vê, tem que lançar os dados, mexer as peças, tirar as cartas, com olhos faiscando e a língua no canto da boca. O joguinho até começa animado, cheio de possibilidades, os lances são divertidos, chamamos amigos para brincar. Mas, à medida que vamos entendendo melhor as regras, somos apresentados a dificuldades inesperadas. Avançamos algumas casas, conquistamos territórios, mas sempre surge um obstáculo que nos faz retroceder. Alguns trapaceiam e, em geral, se dão mal. No fim, alguns ganham, outros perdem, o que define as vitórias não fica muito claro e costuma variar de pessoa para pessoa, de lugar para lugar e por aí vai. Com a pretensão dos que acham que a idade avançada lhes traz alguma sabedoria, vou além e defino: o jogo da vida é um Lego. Isso mesmo: Lego, aquele joguinho de peças coloridas que vão se encaixando umas nas outras, até virar algo que construímos com as próprias mãos. Cada um de nós ganha sua porçãozinha de diferentes peças. Analisa cada uma delas, estuda os encaixes e começa a juntar. Algumas peças se unem com facilidade, encaixam com perfeição, outras nem que a gente force muito. Os sensatos procuram fazer a figura sugerida na caixa, mas há sempre os criativos, os não adaptados, meio malucos, que imaginam algo diferente. Podem até quebrar a cara, mas se divertem mais. De repente, entre tantas, achamos uma peça muito especial, que parece dar sentido ao jogo. Sua cor é um deslumbre, seu formato é lindo, até suas pequenas imperfeições nos encantam. Cuidamos dela, damos a ela toda a atenção e, de fato, algumas ficam - e nos deixam felizes - boa parte ou até o final. Mas acontece também de a gente guardá-la no bolso, fecharmos numa caixa, sem deixar mais que ela se una a nenhuma outra, e isso aborrece muito a peça, até que ela resolve procurar outro lugar para jogar. Logo a gente percebe que não está jogando sozinho. Há uma outra mão por trás de tudo. Vida, destino, sorte, Deus? A gente planeja e começa a construir uma coisa, e, quando vê, virou outra. Triste é quando, de repente, perdemos uma peça importante, uma que dava sustentação às outras. Não adianta procurar que ela não vai reaparecer. Nessa hora, cada movimento é precedido por uma longa mirada no horizonte ou na parede em frente. Mas o jogo segue, e tentamos novas combinações. E, como todo jogo, uma hora a brincadeira chega ao fim. Diferente do truco, num estranho silêncio. Com sorte, a gente ainda pode observar o que conseguiu construir com as pecinhas que tínhamos à mão: se a intenção era a de montar um trator, virou uma vaca perneta; se era formar um submarino, estranho que tenha saído esse espantalho colorido. Mas, pensando melhor, concluo que estou enganado: a vida não é um Lego não. No Lego, os encaixes são perfeitos, precisos e, ao final, as crianças batem palminha. Já a vida, bom, a vida... *Escritor e publicitário jcassiozanatta61@gmail.com