( Jordana Langella/ AT ) Da mesma maneira que o abraço divino, que devia pausar indefinidamente o tempo, sua crise de soluço não vai durar. Tampouco o feriado e essa coceira. Não vai durar o sorvete que você e seu filho chupam caminhando na calçada, apostando corrida com o calor para ver quem o consome primeiro. O sabor de creme não persiste na boca, o suor não marca a pele, e mesmo no tempo do universo, o sorvete permanece pouco menos que a calçada. Tudo é lindo e fugaz como a bolha, que mal ganha o ar, explode, espalhando uma nuvem de gotículas que dura um quase nada, deixando a decepção nos olhos das crianças que sempre seremos. Na rapidez que se consome um cigarro, a vida se abrevia. No tanto que persiste o trabalho maçante, a vida se arrasta. Esse sanduíche em frente ao moleque esfomeado vai resistir pouco mais que a festa do seu cachorro quando você volta pra casa. E a confiança, que a gente podia jurar que era para sempre. O que nunca acaba é o prazer do sono prolongado mais dez minutinhos, e reparar no raio de sol que entra pela janela e ilumina a dança da poeira no ar. Atentar para o voo lento das fragatas sobre os prédios. Então, subitamente, se dar conta da brevidade do amor infinito. Se o tempo não fosse tão afobado, o segundo ainda seria o primeiro. E o relógio, apenas um adereço. O que devia durar muito é tomado pelo atropelo; o que devia passar voando costuma teimar mais um pouco. Alguns minutos viram horas; alguns dias, uma vida. “Garçom, a saideira” é apenas uma tentativa de prolongar a prosa. “Um dia a gente se vê” é a certeza da separação. E, se tudo passa, um dia essa vergonha sem motivo, também? Os olhos registram a brevidade das coisas, sem se dar conta do momento em que piscam. A modernidade do celular dura alguns meses. A vida útil da geladeira, cada vez menos. Os prazos de validade se cumprem nos armários da despensa. O tic e o tac do relógio disputam para ver quem resiste por mais tempo. De tudo, o seu amigo é que tinha que ter durado mais – o tempo passa e nada de você se recuperar. Implacável a persistência do absurdo. Mas somos fortes, suportamos até as dores insuportáveis. Consta que o infinito não tem fim, mas só Deus pode confirmar isso e, no momento, todas as linhas estão ocupadas. A graça é que os momentos bons vão permanecer (ao menos deveriam), as lembranças ficarão encarregadas. Elas voltarão sem aviso: numa viagem de metrô, numa insônia sem aflição, no esbarrão com um perfume, na foto encontrada na gaveta, no trecho de uma oração. Sorvete, calçada, cachorro, fragatas, insônias, perfumes e gavetas, tudo é breve. Uma crônica é que deve durar pouco, bem pouco. Para dar a (falsa) impressão de que a vida é longa.