(FreePik) Não tenho visto meu pai andando apressado pela 7 de abril. Nem vejo mais Maria todo dia. Mas também não vejo mais as famílias escondendo os deficientes nos quartos dos fundos. Não tenho visto tantos pardais pela cidade (eram gorjeante maioria). Não há mais congestionamento de Fusca. Vejo, isso sim, que as crianças têm cada vez menos cárie e a moçada está cada vez mais alta. Tenho visto amigos realizados e outros meio ressentidos. Sumido ficou o suco de abacaxi da Confeitaria Raddi que era só corante. Não tenho visto o Robertinho. Em compensação, reparo que há cada vez menos gravata, cachecol, papel e todos os objetos que o papel demandava: clips, grampeadores, pastas de plástico... Não tenho mais visto (certo seria ouvido?) pessoas contando piadas de fanhos ou gagos. Mas sim uns bobocas fumando cigarros eletrônicos e cada vez mais opções sem glúten. Não vejo mais talões de cheques, as notas de dinheiro são poucas e as moedas, raras e mal-vindas. Reparo que cada vez menos se fala no telefone fixo ou mesmo no celular, o pessoal prefere agora digitar mensagens de texto. Não tenho visto xepa de feira embrulhada em jornal. Vaga-lumes piscando nos campos, no lusco-fusco que anuncia a noite. Tenho visto, sim, raras pessoas usando lenço e muito desrespeito a professores – principalmente por parte dos alunos que mais precisam de professores. Tenho visto pouca gente nos concessionários e ninguém nos confessionários. Raros carrinhos de feira circulando nas calçadas. Em compensação, noto o reaparecimento – ainda discreto – das livrarias de rua, dos coletes e o sumiço dos profetas do fim do mundo. E tenho visto (ouvido outra vez?) que as pessoas não abandonaram os Beatles. Nem sinal dos antigos fliperamas, realejos, tobogãs e velhinhas de cabelo roxo. Já os cobradores nos ônibus, os donos de bancas de jornal e barmen abertos a confidências ainda estão aí para contar a(s) história(s). Outra coisa que não tenho visto: o pessoal lendo as notícias nos jornais expostos nas laterais das bancas. Alguém esticando a mão nas calçadas para chamar um táxi. Hare krishnas vendendo insensos. Office boys com pilhas de boletos na fila do banco. Aliás, não tenho mais visto filas nos bancos. Aliás, cada vez menos bancos. Não mais tendas de circo. Provas bimestrais. Jogo de gude. Volantes de loteria esportiva. LPs a um preço razoável. Fitas cassete. Adolescentes tímidos e cheios de espinhas. Pijamas de flanela. Tatus-bolinhas se encolhendo para se proteger. Marquises generosas pra gente se proteger da chuva. Mas tenho visto a ignorância e prepotência dando as caras. E mais não tenho visto. Talvez não seja culpa dos acontecimentos, mas desses óculos que não ajudam mais. Ou dessa vista que já viu tanto que anda meio cansada?