(Imagem ilustrativa/Pexels) Pode-se amar as maritacas: gostar daquelas pinceladas verdes pousadas no fio da rua e observar com que entusiasmo elas conversam. Pode-se detestar as maritacas e pedir encarecidamente a Deus que dê um fim àquela barulheira de enlouquecer cristão. Pode-se achar muita graça ou ficar aborrecido, como tudo na vida. Um mais sem paciência pode desejar pegar uma garrucha e dar cabo delas. Um franciscano pode sentar debaixo da árvore para conversar e entender qual é a graça das piadas que elas contam. Um sem noção pode querer espalhar uns veneninhos pelo forro da casa que ali não é lugar de maternidade. Um menino pode desejar ter um estilingue; o observador de pássaros, uma câmera melhor; um artista, uma aquarela com dez tons de verde. Um gato pode querer justificar seu instinto de caçador; um doido pode bater com elas altos papos, aos berros. Um sujeito que ouve muito mal pode não entender o que elas estão falando. Outro que ouve muito bem pode não entender o que elas estão falando. Pode-se torcer para uma delas fazer um cocozito que acerte o pastor que vocifera pragas e castigos na praça. Aposentar o despertador, já que elas são eficientes em acordar aos gritos a humanidade. Ou observá-las no quintal uns bons minutos, sem se mexer, todos os dias, para que elas se acostumem com sua presença e não fujam com estardalhaço a cada aparição sua. Pode-se chamá-las de baitaca, baiaté, curica, cocota, guaracininga, humaitá, maitá, como em outras partes desse Brasil lindo e trigueiro. Pode-se muito bem confundir uma maritaca com um papagaio. Até ensiná-las a falar se pode, mas sem sucesso. E reparar que sua gargalhada lembra muito a da tia Concha. Chamar o técnico, pedir para ele subir a escada e entrar no forro da casa, porque uma delas roeu o fio da televisão e cortou o sinal. Como roeu tanto que levou um choque fatal, pedir ao técnico para embrulhar o corpo da bicha num paninho, descer e enterrar no quintal, entre a jabuticabeira e a pitangueira que ela tanto frequentava. Pode-se até fazer um rito de despedida meio sem sentido, enfim. Então, de uma hora para outra, elas somem. Onde se escondem? Se é que não resolvem voar para outras terras, sei lá, onde as frutas no momento sejam mais abundantes. Pode-se assim achar que tudo ficou silencioso e chato demais. Talvez haja uma tristeza indefinida, que não se queira admitir, até que, um dia, o vozerio volte com escândalo e o cidadão comemore saindo para a rua batendo palma, o que só vai assustar as pobres. Capaz até de o sujeito com mania de perseguição achar que está sendo observado por elas, aqueles olhos atentos não o enganam. E entrar em pânico no que elas levantam voo, espalhando para toda a cidade em voz alta (altíssima) seu segredo. Pode-se querer uma vida cercada de maritacas. Pode-se deixar umas comidinhas no muro do quintal. Cantar para elas, já que elas não cantam. Conversar com elas (e elas responderem) como faz Beatriz. Dar nome às maritacas – desde que sejam divertidos como elas: Marinalva, Otacílio, Ofélia ou José Cássio. Pode-se achar tão importante a ponto de nem reparar nas maritacas. Ou jurar de pé junto que vai treinar um gavião para sumir com elas. Pode-se denunciar esse sujeito junto ao Ibama. Ou achar que até que ficou um silencinho bom, dá para assistir em paz ao Bom dia Brasil. Pode-se escrever uma crônica falando de maritacas. Pode-se perder um tempo precioso na sua leitura.