(FreePik) Esta é minha quarta tentativa de começar este texto. As primeiras morreram de inanição. Suas ausências não vão fazer falta nem causar pena. Sou remanescente de quando, na tentativa de escrever, a gente enchia mais latas de lixo que páginas. Hoje, a dificuldade não se manifesta concretamente em folhas amassadas: basta um click e deletamos a tentativa. Ou guardamos em um arquivo, num limbo de pouca esperança. Mesmo este último esforço começou mal: já foram seis linhas que nada de útil trouxeram. Mas sou teimoso feito mula velha e insisto. Direi que a fase anda difícil. Nem nisso estarei sendo original, muita gente anda se queixando hoje em dia. É a dengue, a violência, esse sofrimento que não sossega, o emprego que paga pouco, o emprego que não aparece. Todos estamos cansados desse assunto, ele é triste e nos revolta, mas é difícil evitar. O que podemos fazer é: feito o necessário registro, buscar outros temas. Não falarei de futebol, que a atual fase do Santos – vamos lá, do futebol brasileiro – não é muito animadora. O presidente da CBF é acusado de corrupção, de compra de votos, um escárnio, e nada se pode fazer – nada mesmo? Ou seja: a vergonha dentro de campo contagiou o que está fora (ou foi o contrário?). Nem comentarei a última moda, pouquíssimo tenho saído de casa, e não ando exatamente um exemplo de estilo e originalidade no vestir. A não ser que tênis furado e coletes de abotoar sejam o último grito da moda. Um grito de horror. Tampouco falarei sobre as pessoas nas calçadas. Há tão pouca gente caminhando, e suas passadas parecem normais: pé direito à frente do esquerdo; depois, é o esquerdo que toma a iniciativa; nenhum tropicão ou chute numa pedra que saia quicando e quebre o vidro da loja. Mesmo a loja está vazia. É uma loja de bolsas e sapatos. Os vendedores estão na porta, conversando, um deles fuma um cigarro. Posso falar de gatos. Há muitos no nosso quintal. Safado e Pelezinho não se dão bem, vivem às turras, talvez disputando o amor de Praianinha, que só faz lamber as patas, provocante. Estão atrás dos passarinhos (que também são muitos), se esgueiram nas árvores e pelo gramado feito tigres em miniatura. Quando não estão esparramados no quintal tomando sol. Sua preguiça é contagiante, o que não ajuda em nada o texto. Talvez falar do próprio lixo: é impressionante como a gente produz muito mais lixo reciclável que orgânico. Para cada lata deste, pelo menos aqui em casa, a gente enche três latas daquele. E pensar que lixo era uma coisa só, a gente jogava tudo junto fora, quanta poluição isso causou por tanto tempo. Que mais dizer? Comentar esse ventinho besta? Reclamar da escassez de tatu-bolinhas? Erguer um protesto contra as fechaduras enferrujadas? Contra os pães de queijo recheados? No canto direito da tela, a lata já transborda, pedindo para ser esvaziada. O caminhão de lixo chega à nossa rua dando seu recado escandaloso. Parou em frente de casa e ruge, impaciente. Acho que ele tem uma opinião formada sobre este texto.